O Código Sherpa

Conhecido no mundo do montanhismo, sherpa é o nome dado àqueles que são guias ou mesmo carregadores que ajudam os escaladores a subir as montanhas na região do Himalaia. O termo surgiu do dialeto desta etnia, que uniu as palavras shyar, que significa Leste, e pa, de povo: Shyarpa. Povo do Leste.

Grande parte da população se instalou na base do Monte Everest, próxima ao rio Dodh Koshi há mais de 300 anos. Sherpa, além de ser o adjetivo, é também o sobrenome comum do povo.

O mais conhecido dos sherpas é Tenzing Norgay Sherpa, que acompanhou Edmund Hillary em 1953 na primeira conquista do cume do Everest. Hillary (1919-2008), era neozelandês e junto com Tenzing, foram os primeiros a subir ao cume e escreveram seu nome na História. Edmund Hillary nunca deixou de prestar homenagens, manifestar gratidão e ajudar o povo sherpa.

Os sherpas vivem no Vale do Khumbu, que chega a 3.962 metros de altitude, e vivem do comércio e também da agricultura de trigo, cevada e batata nas encostas das montanhas. Muitos destacam este povo pela incrível resistência e força que possuem.

Por conta do desmatamento e do crescente volume de pessoas na região, o vale é protegido desde 1976 pelo Parque Nacional de Sagarmatha e desde 1979 é considerado Patrimônio da Humanidade pela ONU. Sagarmatha é como os sherpas chamam o Everest.

Fui inspirado pela dedicação e semi anonimato desse povo. Acabei por desenvolver um conjunto de regras baseado em meu trabalho como sherpa simbólico. Acompanhei nestes últimos 25 anos a corajosos e corajosas caminhantes no percurso de suas vidas.

Descobrimos que pessoas comuns, juntas, podem fazer coisas incríveis. Este conjunto de propósitos tem o nome de Código Sherpa. É a primeira vez que ele vem a público e o entrego agora a você.

1. Um sherpa acompanha pessoas que buscam chegar ao cume.

O cume é o lugar mais alto, mas é também muitas vezes um desejo mal construido. Ao chegar ao cume geralmente percebemos que o especial foi o caminho. Quem busca vivenciar a experiência pode tanto buscar outros cumes como também outros caminhos.

2. Um sherpa levará para onde uma pessoa pretende ir.

O que parece um koan japonês ou talvez uma obviedade, é somente uma afirmação sensata. Um sherpa não define a meta, não sugere lugares, não propõe a chegada. O que faz é indicar caminhos, os mais seguros e belos. Não sempre os mais rápidos, mas também não se trata de esticar uma caminhada de forma desnecessária.

Uma pessoa está preparada para encontrar um sherpa quando sabe onde quer chegar. Muitas pessoas não sabem onde querem chegar. Para estas não existe caminho, ou melhor, todos servem. Não há necessidade portanto de um sherpa nestes casos.

Um sherpa levará justamente até ali. Nunca depois nem nunca antes desse lugar escolhido pela pessoa.

3. Um sherpa conhece vários caminhos.

Conhece vários caminhos porque conhece o terreno. Esteve naqueles lugares. Um sherpa irá sempre pelo caminho mais seguro entre os possíveis. E os que tem as melhores vistas, que já foram vistas pelo sherpa.

Um sherpa não se vangloria de saber muitos caminhos. Simplesmente fez isso muitas vezes. Um agricultor não se vangloria de ter feito muitas plantações de batatas. Um sherpa conhece caminhos como um agricultor semeia a terra e colhe o fruto.

A principal vantagem de se conhecer vários caminhos é que a vida é mais bonita por causa disso.

4. Um sherpa é ousado e realista.

Quando o caminho fica muito fácil, é hora de buscar um desafio maior. Quando o caminho é difícil de transpor, não faz sentido arriscar a própria vida.

Alguns chamam a isso de estado de flow. Um sherpa simplesmente está atento ao caminho. O caminho é fluido quando apresenta a dose necessária de desafio e viabilidade.

5. Um sherpa desenvolve empatia.

Um sherpa não consegue fazer o caminho sem criar uma relação de amizade com aquele que acompanha na trilha.

Empatia é a forma que um sherpa desenvolve para saber se o outro terá bolhas nos pés, antes das bolhas aparecerem. As vezes basta trocar o sapato, antes de trocar de caminho.

6. Um sherpa está habituado ao trabalho pesado.

Um sherpa leva a carga mais pesada, monta e desmonta as paradas e acampamentos e alimenta a expedição. Alguns dirão que isso soa a submissão, mas um sherpa faz isso porque ele é o melhor cozinheiro, o mais forte e o mais preparado.

Um sherpa não diz qual é o ritmo da caminhada nem quantos quilômetros se andará determinada manhã. Ele caminha quando deve caminhar, e para quando tem que parar. Mesmo quando o caminhante acha que deve caminhar menos, ou mais. Quando se deve parar ou caminhar é uma decisão de quem faz o trabalho pesado.

7. Um sherpa é motivado pelo caminhar.

Um sherpa ama as pessoas mas dedica-se a amar os caminhos por onde elas passam. E todos os outros caminhos por onde cada um passa ou nunca passou.

Um sherpa faz amigos e ama. Mas é o caminho que está realizando que o motiva. Aquele caminho compartilhado naquele momento é do sherpa também e ele ama aquele caminho mais do que tudo.

Um sherpa, por mais que já tenha feito um caminho, descobre-o como a criança que vê uma libélula. Nasce um novo sherpa a cada novo passo. Um sherpa é uma criança que viveu muito.

8. Um sherpa recebe uma remuneração justa.

Os sherpas do Vale do Khumbu conseguiram proteger o Himalaia com a criação do Parque Nacional de Sagarmatha. Alguns acham que eles recebem pouco pelos serviços perigosos que realizam, auxiliando montanhistas a subir ao cume.

Um sherpa acha justo que o dinheiro seja canalizado para a concretização de um mundo melhor e mais justo, isso inclui suas famílias e o lugar onde vivem. No Himalaia lutaram e conseguiram preservar um lugar e um povo inteiro.

Uma remuneração justa significa garantir que mais pessoas possam chegar onde devem chegar. Um sherpa canaliza os recursos para sua família e a preservação e descoberta de outros caminhos.

Um sherpa seleciona como clientes somente aqueles que chegarão aonde pretendem chegar. E oferece gratuitamente seus conselhos a aqueles que ainda não sabem onde querem chegar. Esses conselhos são financiados pelos primeiros. É justo.

9. Um sherpa comemora quando chega ao lugar previsto.

A celebração é importante para um sherpa. Celebra-se a chegada na meta mas também cada trecho que merece comemoração. A travessia de um rio. O término de um dia. Um sherpa sente alegria na hora de senti-la. Não guarda nem esconde felicidade.

10. Um sherpa vivencia gratidão.

Um sherpa sente continuamente gratidão, não só no cume, mas também nele. A gratidão é o principal ensinamento que aprendeu depois de trilhar muitos caminhos. Vive com gratidão.