4 – onze e meia

ONZE E MEIA

Dona Josefina Miranda e o Senhor Pedro Salinas são minhas outras duas reuniões de hoje. Ambas são pessoas desconhecidas para mim. Este período de campanha é bastante desgastante nesse sentido. Existe um desafio grande de conseguir conquistar novos aliados em um primeiro contato. Recebemos muitos nãos nessa época. Ao mesmo tempo é um prazer gigantesco cada sim que conquistamos. Não tem preço, como diz aquele cartão de crédito.

Dona Josefina é indicação de um velho conhecido nosso. Tadeu Berguer é nosso conselheiro mais antigo. Ele tem 78 anos bem vividos e tem uma lucidez de dar inveja. Vem todo alinhado para nossas reuniões de conselho e costuma dar opiniões certeiras sobre os assuntos da administração. Ele teve uma carreira profissional toda dedicada ao mercado financeiro, ganhou muito dinheiro, nunca se dedicou a nenhuma ação social. Seu pensamento era sempre focado nos lucros das operações. Uma tarde ele me segredou que quando se aposentou há vinte anos, chegou a pensar em suicídio. Olhou ao redor e só via coisas frias, um casamento acomodado, filhos crescidos e distantes, uma casa suntuosa e sem vida. Procurou um colega ainda mais rico que havia se aposentado há mais tempo e ele lhe comentou sobre seu novo hobby: ajudar entidades. Ele visitou com seu amigo algumas dessas ONGs. Onde achou que veria miséria e tristeza, encontrou crianças sorridentes e doentes esperançosos. Conheceu líderes comunitários semi-analfabetos com mais sabedoria que aqueles dois aposentados juntos. Viu assistentes sociais recebendo salários baixíssimos, mas com um brilho nos olhos que ele perdera antes dos quarenta anos.

Chegou em casa e comentou decidido para a mulher: Iria separar uma boa parte daquele dinheiro esparramado em diversos paraísos fiscais e faria disso um fundo. A rentabilidade desse fundo iria para doações que ele e sua mulher escolheriam. Ela, incrédula e habituada a passear pelo shopping e jogar tranca com as amigas no clube, quase pede o divórcio. Mas respirou fundo e acreditou que aquele brilho no olhar do marido devia vir de alguma coisa boa. Ai dele se fosse outra mulher.

Seu Tadeu foi informar-se sobre a legislação brasileira e se havia algum mecanismo fiscal que permitisse investir em doações de forma estruturada. Quase desistiu. Como havia trabalhado quase toda a vida com americanos, sabia que vários deles criavam fundações familiares e fundos específicos a determinadas causas. Sabia também que nos EUA a legislação era favorável a esse procedimento. Uma herança é taxada em quase 50 por cento pelo governo se a idéia é repassar esses recursos para os herdeiros diretos. Já se um milionário americano resolve criar uma fundação e doar sua herança para a fundação administrar, essa taxa de impostos cai para menos da metade. Esse modelo americano é muito bem pensado. Estimula os herdeiros a serem os próximos self made man, para que conquistem seus próprios sucessos. E simultaneamente estimula a filantropia americana ao gerar novas fundações que defendem causas.

Tadeu, ao contrário, ficou desestimulado a criar um fundo. Mas como foi conhecendo entidades para futuramente fazer doações, ficou encantado em poder ajudar através do seu conhecimento e experiência. Essa é uma grande captação de recursos: o conhecimento alheio. Assim que fez a primeira contribuição para nossa ONG e após termos ouvido sua história de vida, tentamos fisgá-lo para que fosse nosso conselheiro. Lembro quando dissemos isso a ele, em sua casa. Seus olhos brilharam. Disse que havíamos sido a primeira ONG a convidá-lo a ser conselheiro e que a felicidade dele naquele momento era maior que todas as promoções profissionais que teve em sua vida.

Pensei nisso tudo enquanto esperava Dona Josefina me receber em seu escritório. É um lugar pequeno, com uma secretária de quase duzentos anos. O ambiente é denso, cheio de tapetes persas, quadros cafonas e móveis dourados. É como se os móveis fossem de outro lugar e quisessem colocá-los todos nestes poucos metros quadrados.

Seu Tadeu me disse que Dona Josefina é muito amiga de sua esposa. Uma senhora muito rica, cujo marido faleceu faz uns 5 anos. Ela administra as propriedades da família e é muito religiosa. Contribui com uma creche que fica na periferia da cidade, onde antigamente sua família era dona de todas aquelas terras. Seu Tadeu me disse que ela estava interessada em contribuir de forma mais organizada. Eu perguntei se ela estava disposta a contribuir com a entidade ou se era uma conversa para trocarmos idéias. Seu Tadeu respondeu, não muito convicto, que ela poderia contribuir sim. Veremos.

Os sinais eram claros de que começávamos mal. Havia marcado com Dona Josefina às 11h30min. Era quase meio dia e nada da Dona Josefina. Estava a meia hora tentando puxar assunto mas a secretária da revolução francesa parecia imune a qualquer envolvimento com qualquer reles mortal. Disse-me secamente que Dona Josefina estava terminando um assunto ali. Esse ali ela apontava com o olho esquerdo e pelos meus cálculos parecia apontar a porta do banheiro. Eu rezava para que ela não saísse do banheiro depois de meia hora, pois eu iria cair no riso.

Mas Dona Josefina chegou. O ali da secretária deveria se referir a algo fora daquele escritório, algo bem perto. Olhei entusiasmado para Dona Josefina e comecei a levantar-me. Mudei de idéia quando vi que ela entrou serenamente em sua sala, sem olhar para mim e dizendo um: “Peça para ele aguardar mais um minutinho” para a secretária. Tentei não fechar a cara. Odeio essas reuniões. Odeio. São aquelas cujas pessoas levam muito tempo até perceberem que existe um ser humano do outro lado da mesa. Gasto muita energia nesses momentos. Acumulo toda a paciência do mundo, como se fosse um videogame. E fico pensando qual será meu troféu. Desisto de pensar em dinheiro para a ONG e penso em pequenos prêmios. Outra indicação, um sorriso, ou o melhor dos troféus: A pessoa perceber que foi deselegante. Adoro quando conquisto esse prêmio.

Aguardei mais um minutinho, que pelo meu relógio foram 10. Dona Josefina deve ter falado para sua secretária pelo interfone para que eu entrasse. Levantei-me, fui em direção à porta e a secretária, pura Maria Antonieta, abriu para o aposento como se eu fosse entrar no Reino das Águas Claras.

Josefina manteve-se em silêncio lendo algum relatório cheio de números. Sentei-me e esperei que terminasse. Se for para ver quem teria mais paciência, eu iria ganhar. Acho que percebeu a deselegância e olhou pra mim pela primeira vez. Disse-lhe finalmente bom dia e já tratei de enviar-lhe um abraço do Seu Tadeu. Ela não mexeu um músculo. Sim, aquela seria uma reunião difícil. E eu achei que a do Antonio tinha sido complicada… Antes de começar a falar sobre nossa ONG, disse-lhe que Seu Tadeu havia comentado sobre seu interesse em organizar melhor suas contribuições sociais. Ela então tirou os óculos grossos e começou a falar. Explicou sobre sua creche, sobre as dificuldades, sobre o fato de todo mês ter que colocar dinheiro lá, que o convênio da prefeitura é ridículo e que ela já pensou mais de uma vez cancelar o convênio. Falou que a creche já contratou uma estagiária para captar, mas que “a menininha era muito burra” e não conseguiu captar um centavo.

Puxei esse gancho para, com o resto de simpatia que me restava, oferecer-me a ter duas ou 3 conversas com “a menininha”, dando-lhe alguns conselhos e indicando alguns bons cursos que existem. Mas ela me cortou rapidamente. Disse que a menina já tinha sido demitida, que ela resolvera arregaçar as mangas e cuidar daquela bagunça. Por isso havia conversado com o Seu Tadeu e ele havia me indicado.

Eu fiz uma cara de espanto e acho que ela percebeu.

Começou a falar para que eu não me preocupasse, que eu poderia continuar trabalhando pra “minha ONG” e que ela só precisava de “umas empresas aí” que eu conseguisse. Pagaria o justo por isso. “Parece que é 10 por cento, né?”

Eu nem sabia por onde começar. Sei que o palavrão eu teria que engolir. Comecei dizendo que achava que havia ocorrido um mal entendido. Seu Tadeu tinha me comentado sobre a possibilidade de que ela fosse contribuir com nossa entidade. Ela continuou incólume. Segui então, dizendo que estava também disposto a ajudá-la, como Seu Tadeu chegou a dizer. Mas que jamais faria isso como um trabalho, muito menos com comissionamento. Ela parecia não perceber nem minha presença. Ou fingia muito bem, ou não estava entendendo minha língua.

Começou então a falar que então eu podia ser voluntário já que era o que eu queria e… Tive que cortá-la. “Dona Josefina, preciso agora que a senhora me escute” Tentei em 5 minutos explicar-lhe coisas básicas sobre o terceiro setor. Disse-lhe que se ela continuasse procurando um captador desta forma, só encontraria pessoas que não atenderiam suas expectativas. Como sempre ando com o código de ética da ABCR na minha pasta, deixei-lhe uma cópia para que lesse depois. Contei sobre os avanços de gestão que estão ocorrendo em entidades que profissionalizam a parte administrativa, disse que realmente os convênios são muito baixos e por isso devemos buscar mais fontes. Quando dei um respiro para ver o que mais eu devia falar, ela soltou um fatídico: “Mas qual o problema de dar uma comissão para quem conseguir um doador? Você não recebe uma comissão se eu doar para sua ONG?” expliquei-lhe que não, que eu era um funcionário contratado, que recebia um salário, como a pedagoga, o administrador e a secretária. Ela ainda insistiu: “Mas isso não é suficiente. Qualquer vendedor é movido a comissão de vendas” Então respondi: “Só que eu não vendo, eu capto.” Ela não entenderia, pelo menos não naquele momento.

Fui encerrando a reunião dizendo que provavelmente ela não estava disposta a contribuir com a entidade e que a confusão do Seu Tadeu é que gerou essa situação. Pedi também desculpas por não corresponder a sua expectativa e desejava sucesso para a creche e para as crianças.

Ela ainda insistiu mais uma vez: “Ok, e se tiver alguma empresa aí que queira doar para a creche, me avisa”. Eu ainda tive o bom humor de dizer: “Ok, e se a senhora quiser doar para nossa ONG, está aqui o folheto e meu telefone!”. Ambos sabíamos que não haveria nem uma coisa nem outra.

Saí arrastando os pés, disse um até logo para a secretária. Quando já estava fechando a porta, ela me diz: “Você não estudou na Escola Colombo?” Eu confirmei, tentando entender. Ela então me disse: “Eu sabia! Depois que você entrou na sala da Dona Josefina que eu lembrei. Eu era secretária da direção lá, lembra?” E eu lembrei. Era verdade. Fazia tanto tempo, ela já era uma senhora na escola. Um doce de pessoa, sempre prestativa. Perguntei, com muita curiosidade e cara de espanto: “Mas o que a senhora está fazendo aqui?” Frisei o aqui. E ela me contou de sua vida. Eram tantas lembranças, tanta gente em comum, que acabamos descendo juntos, pois ela ia sair pra almoçar. Já no elevador me confidenciou: “Dona Josefina não era assim. Desde que morreu o marido, ficou áspera, triste, sozinha” Eu contei-lhe da confusão. Ela conhecia o Seu Tadeu. Disse-me que realmente a Dona Josefina estava procurando alguém para cuidar da creche. Ela nem ia lá. Quem doava dinheiro pra creche era seu marido e ela continuou, pois sentiu-se na obrigação. Fazia quase 10 anos que não punha os pés naquela creche. “Sério?” eu disse. “Pois vamos subir de novo”. E contei pra Dona Mercedes, a secretária da minha escola e agora da Dona Josefina que eu fazia questão de convidar ambas pra passarmos um sábado de manhã naquela creche, que eu queria conhecer aquelas crianças. Após subir o elevador e entrar na sala, Dona Josefina olhou-me incrédula. Quando disse pra Dona Josefina que iríamos os três para a creche no próximo sábado, primeiro ela aparentou dizer um não. Diante da minha cara decidida, arrumou um pouco o cabelo, tirou os óculos novamente e disse, titubeando: “Ok, eu topo. Mas também quero conhecer os jovens que o Tadeu tanto me fala

Consegui sair de lá com meu troféu. Agora tocava almoçar com Dona Mercedes, pra fofocarmos da vida e sobre minha escola.

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