5 – duas da tarde

DUAS DA TARDE

Foi um almoço ótimo. Dona Mercedes me contou muitas histórias que eu não sabia. Contou do professor de literatura que era amante da coordenadora de educação física, uma mulher casada que levava o marido a tiracolo em todas as festas juninas. Contou do diretor que dormia todas as tardes no sofá da sala de reunião e pedia a ela que avisasse que estava ocupado analisando diários escolares. Contou histórias onde rimos muito, como dois adultos que éramos agora.
Disse-lhe da péssima impressão que tive inicialmente, ao vê-la tão sisuda naquela sala de espera da Dona Josefina. Ela me confidenciou que realmente os móveis, tapetes e quadros pertenciam a outro escritório maior, da empresa do marido de Dona Josefina. Quando ele morreu, Dona Josefina comprou aquele escritório, que ficava a dois edifícios de seu apartamento. Confirmou-me que Dona Josefina estava em seu apartamento quando cheguei e que ela ligou discretamente, sem que eu percebesse, para que viesse.
Acabou por contar-me mais sobre o sofrimento de Dona Josefina. Do distanciamento dos amigos do casal, da frieza de suas irmãs, que com ela, seriam todas responsáveis pela creche, mas que de fato só ela acabava por pagar as contas quando havia déficit. Fiquei pensando como somos imperfeitos, incompletos, demasiadamente humanos, como diz Nietzsche. Eu, que fiquei com uma péssima impressão assim que cheguei, odiando o lugar, a Dona Mercedes, a Dona Josefina, acabava por perceber como tudo tem justificativas, tudo envolve o amor ou a falta dele.
Não sou de muita filosofia, mas fiquei pensando muito enquanto voltava do almoço para meu escritório, nas injustiças que cometemos por impressões equivocadas que fazemos uns dos outros. Será que conquistarei sabedoria suficiente nesta vida a ponto de ser menos injusto? Enfim, vamos trabalhar. A estagiária me espera.
Carina estuda comunicação numa das melhores universidades de São Paulo. Fiquei encantado por ela desde a entrevista. Sobressaiu-se dos demais de forma sutil, simplesmente por mostrar curiosidade em aprender e por ter lido várias coisas antes de se encontrar conosco. Um estagiário não precisa saber muitas coisas, afinal é novo e quase não tem experiência, mas se demonstra interesse em aprender, é provavelmente o mais indicado.
Nas primeiras semanas de trabalho deu diversas idéias e também trouxe muita informação resultante de suas pesquisas no Google. Hoje ela iria me mostrar o novo formato da newsletter eletrônica. Ela pesquisou ferramentas de email-mkt e ainda criou os templates (diagramações) novos. Explicou-me que a ferramenta escolhida trazia muitos aplicativos que poderíamos usar posteriormente, mas o que mais a interessou era o relatório de resultados, que apontava detalhadamente quantos receberam o informativo, quantos clicaram, quanto tempo ficaram em nosso site, quantos clicaram na ferramenta de afiliação, etc. Uma maravilha!
Temos atualmente quase 500 apoiadores constantes. Fruto de um trabalho de vários anos, mas que deu um salto quantitativo a partir do momento que criamos uma campanha de filiação e a divulgamos prioritariamente no site. Também enviamos cartas, mas em geral é uma vez por ano junto com o relatório anual. Ainda não fizemos uma campanha massiva para a busca de novos associados, mas estamos nos preparando para isso. Já temos um sistema eletrônico de filiação on line, estamos agora renovando a newsletter e em algumas semanas lançaremos a campanha de indicação de novos associados para nossos sócios atuais. E isso foi idéia da Carina! Ela tem estudado Marketing Direto na Faculdade e observou que uma estratégia clássica para novas vendas é usando a base de dados dos atuais compradores. A empresa oferece algum brinde em troca da indicação de algum novo comprador.
Em nosso caso, resolvemos juntar duas coisas: Nossa “loja” e a campanha de novos associados indicados. Nossos sócios receberão um email especial, falando da campanha. A cada novo associado que eles trouxerem, ganharão uma caneca com o Logo da nossa entidade. Se conseguirem 3 novos associados, levam também uma camiseta e acima de 5 associados, ganham também uma agenda personalizada. Esses e outros produtos estarão em nossa loja virtual, onde poderão perceber o real valor financeiro que estarão recebendo.
Como são pouco mais de 500 associados, consideramos essa experiência um piloto para vôos mais altos. Queremos analisar os erros e acertos da campanha, se ela foi do agrado dos associados, se trouxe bons resultados… Depois disso queremos trabalhar com mailings maiores. Nosso objetivo mesmo é consolidar a área de captação com indivíduos dentro da entidade. E se a Carina quiser, ir ocupando esse cargo aos poucos. E parece que ela quer seguir essa carreira, mesmo depois de formada. Torço para que isso ocorra.
Depois de escolhermos um template compatível com as cores e o design do site da entidade, finalizei com ela o texto da newsletter. Mexi muito pouca coisa. Ela, como estudante de comunicação, está sabendo aliar um texto “vendedor” da entidade com elementos de mobilização pela causa. A Carina promete ser uma excelente captadora e o mercado publicitário perderá (que bom) uma excelente redatora de anúncios de sabão em pó.
Na segunda metade da reunião resolvemos nos dedicar ao evento da noite. A tarefa dela era a de confirmar as presenças e garantir a todos os participantes um material informativo da entidade além de um folheto com nossos novos produtos. Em algumas cadeiras do jantar, decidimos também prender um envelope com a descrição de um pequeno prêmio (uma caneca, ou camiseta, ou agenda). 10 pessoas receberão esse prêmio e subirão ao pequeno palco para contarem sua história de envolvimento com a entidade. Sabemos que muitos dos presentes mal conhecem a entidade e esse é o primeiro encontro que participam, mas poderão contar sobre isso, como chegaram até ali. Nossa idéia é falar da entidade pela boca dos nossos apoiadores.
Carina já disse que está tudo pronto, chegará uma hora antes no jantar, para colar os envelopes em cadeiras aleatórias e deixar também os folhetos em cada mesa. Preparará também um espaço ao lado da entrada com as canecas, agendas e camisetas, para comercialização, além de folhetos de afiliação. Ela cuidará da geração de renda extra nessa noite.
Confirmei com ela a lista dos confirmados e anotei em um papel as 15 pessoas que pretendo dar um abraço e mais um agradecimento por contribuírem com a entidade. Não costumo falar nesses jantares, mas peço sempre que algum doador fale em nosso nome, antes da fala de nossa fundadora. Ela sabe que esse é um evento festivo e por isso é o momento de agradecer e comemorar. Um discurso rápido é suficiente para dar o recado. Já participei de jantares cujos discursos eram intermináveis e se via nitidamente o sorriso dos presentes se esvaindo aos poucos.
Carina e eu encerramos a reunião, cada um já sabia sua função e tínhamos coisas pendentes para terminar no decorrer da tarde. Agora era hora de responder emails antes das duas últimas reuniões do dia.

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