6 – quinze horas

QUINZE HORAS

Abrir a caixa postal. Ver uma quantidade enorme de emails que chegaram hoje, responder o máximo de emails possível. Evitar ao máximo a distração dos links que nos mandam. O que faríamos sem a internet hoje em dia? Eu sou uma espécie de dinossauro. Cheguei a trabalhar em escritório sem computador pessoal. Cheguei até a ter uma caixa de entrada e saída de documentos. Uma caixa de entrada real! Minha estagiária nunca tinha visto uma. Expliquei-lhe que antigamente os escritórios tinham essas caixas de entrada e saída de documentos e que a caixa de entrada de emails é uma metáfora disso. Qualquer pessoa que trabalhasse em escritórios naquela época queria ter sua caixa de entrada limpa, pois isso significava que o trabalho estava feito. A caixa de saída cheia era sinal de coisas concluídas para alguém buscar. Essa metáfora hoje é pouco aproveitada pela geração web. Eu ainda tento ter minha caixa de entrada somente com emails sem responder ainda. E esse mero detalhe tem me ajudado e entrar nesse mundo web com mais solidez, sem a sensação de acúmulo que muitos amigos meus tem. A caixa de saída da web está sempre vazia, afinal mandar um email demora um segundo. Por isso me resta a famigerada caixa de entrada, que evito que acumule mais de 50 emails sem resposta. Outros colegas costumam arquivar os emails em pastas por assuntos, como os arquivos de antigamente. Eu já prefiro usar os mecanismos da web e uso etiquetas que já são “coladas” assim que um email chega. Desta forma, alguns emails nem passam pela caixa de entrada e vão direto para um diretório. Tenho diretórios como “lista de discussão do grupo de voluntários” ou “Orkut” ou ainda “propaganda”. Desta forma minha caixa de entrada tem somente emails que requerem alguma resposta minha enquanto que listas, emails automáticos e outros emails que não necessitam de urgência podem ir direto para esses conjuntos de emails etiquetados previamente.
Se não fosse essa minha organização prévia eu não teria tempo suficiente para surfar na web, como faço todo dia. Já fui mais assíduo de listas de discussão sobre captação e sobre a temática da criança e adolescente. Já participei também de listas internacionais sobre Fundraising, mas hoje tenho “robôs” que coletam informações pra mim. O Googlenews permite que eu faça uma seleção de palavras chave e que a cada vez que ela apareça em algum jornal monitorado por ele (e são milhares) chegue em um email pra mim com a notícia. O mesmo pode ser feito para buscas de palavras que surgem em sites. Eu tenho o nome da entidade, o meu nome, o da fundadora e de alguns conselheiros previamente selecionados. Se aparece algo na web, os robôs do Google me avisam.
Isso tudo tem me permitido estudar novos mecanismos de arrecadação para investirmos cada vez mais em captação via web. Tenho plena convicção que não se trata de um novo segmento e sim do próprio futuro no presente. Se quisermos continuar vivos, temos que nos comunicar com os nativos digitais, que em poucos anos estarão nas empresas e governos, cuidando do mundo, enquanto nós estaremos nos aposentando.
Nossa loja virtual é um primeiro passo pra isso. Para que ela surgisse, tivemos que pesquisar quais as ferramentas que existem e qual se encaixa conosco. Sabemos que o resultado de vendas será baixo inicialmente, talvez por muito tempo. Mas o fato de termos que aprender como usar cartão de crédito via web, páginas seguras, logística de entrega, etc, nos ajudará a pensar campanhas mais específicas usando bases de dados de doadores. Estamos sempre testando experiências e isso é sempre muito estimulante.
Respondi uns 3 emails de gente confirmando que virá ao jantar hoje. Apesar de enviarmos a eles um sistema automático de resposta, muitos ainda preferem o formato padrão: mandar um email ou ainda telefonar. Temos que conviver com isso, entendo-os, pois como eles, somos imigrantes digitais. Não confiamos plenamente nos códigos dessas máquinas que trabalhamos. Respondi a todos que será um prazer recebê-los e já mandei o email com cópia para a Carina, para que ela controle a lista de presença.
Uns 5 emails eram puro lixo, o chamado spam. É impressionante como estamos cercados de emails que não nos interessam. Apesar do sistema já limpar muitos desses emails e enviá-los para um diretório de spam. Apesar de eu mesmo programar para não receber emails indesejados de determinados remetentes, ainda assim, diariamente recebo, como todo mundo, emails que não me dizem respeito. É o preço que pagamos por entrar na web. Convenhamos que é um preço baixo, comparado com os benefícios. Um dos emails tratava de EAD, educação a distância, e gostei de um curso em específico. Etiquetei como “para ler depois” e tirei da minha caixa de entrada.
Depois de responder vários emails, inclusive alguns mais antigos, tive que me dedicar a um email que estava me esperando fazia mais de 10 dias. Era um projeto que a fundadora tem em mente e sei o trabalhão que dará: Construir uma filial do projeto. Coisa pra daqui a 2 a 3 anos.
Esses projetos são trabalhosos mas ao mesmo tempo geram um prazer específico aos doadores. Eles sabem que seus nomes estarão registrados para sempre na história da entidade. É um momento bom de fortalecer a relação com doadores históricos além de ampliar recursos com novos doadores. Essa campanha capital, em especial, tem também um significado importante para nossa entidade. Estamos consolidando uma metodologia, podemos crescer de forma sustentável, podemos, com orgulho, mostrar para a sociedade que conseguimos fazer mais e melhor, só precisamos de recursos extras para esse crescimento.
O email tinha no anexo 3 outros documentos. Duas propostas de construtoras, incluindo custos; e uma carta da própria fundadora, para que eu revisasse, e que seria enviada aos primeiros doadores em potencial. Nossa fundadora não para, e isso é bom. Mas ela sabe também que não é para atropelar as coisas, e isso é ótimo. Antes de enviarmos cartas aos doadores, teremos que fazer uma reunião envolvendo o gestor, ela, eu, a construtora escolhida e um ou dois de nossos conselheiros. Dessa reunião sairá um valor aproximado de quanto precisamos captar, além de um prazo claro de até quando vai nossa campanha. As construtoras que mandaram orçamentos tinham valores muito próximos, por isso deixei a decisão para ela e o gestor. Já em relação à carta, fiz alguns acréscimos e exclusões, mas disse a ela por email que podemos trabalhar melhor nisso posteriormente. Minha sugestão é que nos reuníssemos na semana que vem e que tudo indicava que a campanha capital deveria começar em 6 meses, para em um prazo de 8 meses conseguirmos os 2 milhões aproximados da obra. Nesses 6 meses preparíamos os materiais, definiríamos as categorias de patrocínio das empresas e faríamos a busca de algum recurso extra com fundações ou governos. Enviei o email sugerindo a reunião para a próxima terça, às 10 da manhã e já deixei essa data pré marcada na minha agenda.
Aproveitei os minutos que me restavam antes da reunião com as voluntárias para, pela enésima vez, fazer umas buscas com fundações internacionais e com editais de governos. Toda semana passo ao menos uma vez por alguns sites que informam o que tem saído de novo. Quando comecei a trabalhar com captação não havia essa possibilidade. Ou eu passava a ler todos os diários oficiais, que ninguém em sã consciência faz, ou tinha que me contentar com algum comentário ou matéria em algum jornal ou revista. Hoje basta com fazer algum search ou visitar sites específicos. Definitivamente o Google é o maior parceiro dos captadores.

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