Ao abrir as redes sociais profissionais, o cenário é quase onipresente: delegações em viagens internacionais, encontros de lideranças, programas de fellows, fotos de grupos sorrindo e mensagens inspiradoras sobre transformar o mundo. Nada disso é necessariamente ruim. O problema é que, aos poucos, o centro da narrativa mudou.
Durante muito tempo, o terceiro setor falava principalmente das comunidades, das pessoas atendidas e dos problemas sociais concretos. Hoje, falamos muito mais de nós mesmos: das lideranças, dos especialistas, dos consultores e das redes de impacto. Sem perceber, começamos a construir algo que se parece menos com um ecossistema e mais com um egossistema.
Uma forma de entender esse fenômeno vem da sociologia. A sociedade é composta por diferentes camadas: a infraestrutura, onde estão as atividades concretas e o trabalho real nos territórios; e a superestrutura, formada por narrativas, instituições e símbolos de prestígio. Toda área produz sua própria superestrutura, e o terceiro setor não é exceção.
Hoje, existe uma agenda permanente de conferências, fóruns e encontros. Esses espaços geram aprendizado, mas trazem um risco: quando a superestrutura cresce demais, ela passa a falar mais sobre si mesma do que sobre a realidade que lhe deu origem.
Eu mesmo passei e passo por isso.
O sociólogo Pierre Bourdieu ajuda a explicar essa dinâmica ao mostrar que campos sociais disputam capital simbólico — reconhecimento e autoridade. No universo do impacto, isso se traduz em convites para conselhos e circulação em espaços de elite.
Com o tempo, forma-se o “campo do impacto”: um conjunto de instituições e consultorias que estruturam o debate, mas que correm o risco de se fechar em um circuito de autopromoção, onde os mesmos especialistas comentam os mesmos temas para os mesmos ouvintes.
Enquanto isso, a infraestrutura do setor social continua espalhada pelo país, muitas vezes invisível. São organizações que lidam com problemas complexos, recursos escassos e nenhuma visibilidade. São elas que mantêm vivo o tecido social brasileiro. É sobre elas.
Uma consequência direta desse “egossistema” é o enfraquecimento do espírito crítico. Vivemos uma era de aplausos fáceis, enquanto a desigualdade permanece profunda. Muitas vezes, as comunicações públicas fazem os beneficiários desaparecem para dar lugar aos gestores de impacto. Há pouca conversa dura sobre o que não funciona: organizações sufocadas pela burocracia e recursos que orbitam apenas nas capitais do Sul.
No início dos anos 2000, os encontros de ativistas eram laboratórios de dúvidas reais, não vitrines de sucesso. O foco era a realidade, não a performance. Não havia redes sociais, é verdade — o que muda quase tudo. Eu estava lá, cresci profissionalmente naquela sopa primordial.
Sou mais um ego que ajudou a construir a infraestrutura e a superestrutura do setor. Mas algo tem me incomodado nos últimos anos e o que busquei para amenizar o incômodo foi dar um passo para o lado. Trabalhar nos bastidores, descer do palco e colocar os holofotes nos verdadeiros artistas. É uma tarefa que passou a ser meu cotidiano e um exercício zen para mim (que adoro um palco).
Então comecei a desenhar uma nova iniciativa. Fiz para mim e para alguns amigos esparramados pelo país uma pergunta simples: Quantas organizações sociais existem na sua cidade ou no seu bairro? Sabemos pouco. Os dados do Mapa das OSCs são imprecisos. Antes de fortalecer ainda mais a superestrutura, precisamos voltar para a infraestrutura. Mais ainda, para a base dela, o chão.
Precisamos saber quantos somos e o que fazemos.
Precisamos mapear o próprio tecido social do país *. Eu acredito que, em dez anos e até menos, podemos fazer uma revolução nos baseando em três pilares: Censar (identificar cada organização nos territórios), Capacitar (educar em gestão a quem já tem a vivência social na ponta) e Certificar (validar a existência de quem atua).
Das mais de 900 mil do Mapa, quantas de fato existem? Quantas ONGs existem em Congonhas (MG)? Assim que as descobrirmos, vamos capacitá-las? Quem paga a conta? A prefeitura? O BNDES? A Vale? Vamos capacitar e certificar todas as ONGs do Acre? O prefeito de Sorocaba quer falar com todas as OSCs pra convidá-las para editais. A fábrica da WEG na pequena cidade de Goiás quer treinar todas as ONGs. O estado de Tocantins quer avaliar todas as ONGs e criar uma base pública.
Começa assim.
E fazendo isso, de cidade em cidade, de acordo com a articulação existente e com o que se possa replicar, chegaremos de baixo para cima, não de cima para baixo, como é o atual registro nacional das OSCs. Impreciso mas bem-intencionado, confuso nas buscas, apesar de bem-feito. Mastodôntico, porque é pensado desde cima. Importante, mas insuficiente.
Trocar o egossistema pelo ecossistema social real, censando toda a flora e fauna deste nosso mundo social, é como fazer um balanço pra saber o que temos em estoque. Se não arrumamos nossa casa social, se não a conhecemos, o que estamos celebrando mesmo?
O Brasil não precisa de mais um circuito de prestígio. Precisa conhecer quem já está trabalhando. Os verdadeiros protagonistas da transformação — essa tecitura social invisível — estão espalhados no território. Está na hora de sermos apresentados a eles e eles a nós.

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