A gravidez que fez nascer a ABCR

No dia 11 de janeiro de 1999 comecei uma lista de discussão cuja primeira mensagem era uma frase automática : Welcome to the fundbr E-Mail Group.

Depois de alguns dias adicionando pessoas com ajuda da Célia Cruz, escrevi uma primeira mensagem de boas vindas no dia 22 de janeiro e entre outras coisas comentei o seguinte: Como iniciarmos um sistema semelhante a um “Código de Ética” que nos una e principalmente estabeleça princípios no trabalho do Fund Raising?

Esta era a mensagem número 3 de uma lista de discussão que ainda existe, tem mais de 6700 emais e está disponível para quem quiser ler a história neste link:  https://br.groups.yahoo.com/neo/groups/fundbr/info

Fiquei emocionado hoje ao passar a tarde lendo muitas dessas mensagens. Lá estão as primeiras versões da missão, a discussão dos possiveis nomes (chegaram a sugerir que a ABCR se chamasse Abracadabra!) e um debate que durou muitas mensagens: o código de ética, mais especificamente o comissionamento. Houve brigas, gente que saiu da lista, gente que se conheceu nela. Teve até casamento.

Na mensagem de número 5  a Célia Cruz comenta da 36a Conferencia da National Society of Fund Raisers Executives (hoje chamada AFP). Ela disse: “estamos querendo montar uma equipe brasileira “de peso” na Conferência, para que tenhamos respaldo para montar um capítulo brasileiro aqui”.

Em 27 de março de 1999, a mensagem 51 diz: Creio ser válido considerarmos a formação de uma entidade que congregue Captadores de Fundos, estabeleça princípios éticos da atividade, combata eventuais oportunistas inescrupulosos, promova um “selo” de qualidade para os profissionais responsáveis dedicados a esta tarefa … Nosso querido René Steuer a assinava. Começava aí a ABCR, antes mesmo de irem à Conferencia.

A ideia era a de ser um capítulo da NSFRE, como ocorria no México. O congresso ocorreria em Miami em abril. Em 20 de maio de 1999, pós congresso, eu escrevi à lista: Fui incumbido de apresentar um resumo da reunião que alguns participantes da lista fizemos na GV na ultima quinta feira. Ficou estabelecido entre os participantes da reunião que a criação desta associação deve ocorrer mais por “qualidade” do que “urgencia”, ou seja, vamos buscar o máximo de consenso, uma maior divulgação das propostas e uma troca de informações que tratem de objetivos, missão e organização para aí então definirmos a criação da associação brasileira.

Em 13 de julho, na mensagem 113, René anima novamente a lista para seguirmos com a criação da associação ainda sem nome: Penso que nossa associação deve em principio definir normas de comportamento e atitude, catalogar e distribuir informações, ajudar a treinar captadores, promover a qualidade ética e profissional de nosso trabalho, ser um ponto de referência para o mundo externo com relação à Captação de Fundos para o Terceiro Setor.

Em 29 de julho de 1999 chega uma mensagem de quem viria ser nossa querida segunda presidente: Meu nome é Cristina Murachco e trabalho como Consultora em Desenvolvimento Institucional na PUC/SP há 1 ano. Desenvolvo ações de captação de recursos para projetos da Reitoria (grandes projetos institucionais da Universidade) e presto assessoria a projetos das Unidades Acadêmicas. Este trabalho é novo dentro da PUC/SP e portanto ainda é difícil mensurar resultados. Fico muito feliz em perceber que há um importante movimento de organização de nosso trabalho: estou certa que todos ganharemos com isto – nós mesmos como profissionais e o Terceiro Setor como um todo.

A mensagem 135 é longa, onde René sugere, entre outras coisas: – Batizemos nossa entidade como Associação Brasileira de Captadores de Recursos. Recursos me parece melhor do que Fundos, por ser mais amplo – Não nos transformemos num “capitulo” da NSFRE ( como é o caso do México e Alberta) pois acredito que será benéfico manter independência de qualquer entidade específica. Isto nos proporcionará liberdade de contato com qualquer entidade internacional, e acima de tudo nos dará a oportunidade de construir uma entidade consciente da cultura e realidade do nosso país.

Em 5 de agosto, após uma reunião realizada na GV com 40 participantes escrevo: Nos dividimos para enviar à lista 3 assuntos para discussão. Eu coordenarei “código de ética”, Celia : “Missão” e João Meirelles e Rene : “estatutos”.

Rodrigo Alvarez escreve logo após meu email: … Já que esta aberta a discussão sobre o tema polêmico: comissionamento, permitam-me que eu me posicione. Sou também da opinião defendida pela Celia na ultima reunião. Acho que devemos garantir em nosso código de ética nossa postura em relação ao pagamento de salários aos captadores de recursos, e nao um comissionamento pela venda. Ora, se estamos criando uma Associação de Captadores de Recursos, um dos objetivos é fazermos com que a profissão seja respeitada. E respeito, a meu ver, dentro de uma organização, é considerar o captador de recursos tão importante quanto um educador, quanto um psicólogo, quanto qualquer outra pessoa que faça parte da equipe. O que acho é que a postura de pagar salários é mais condizente com o tipo de associação que queremos criar.

Em 6 de agosto recebemos o primeiro email de quem viria a ser nossa primeira Vice Presidente: Como estou debutando nesta interessantíssima lista de discussão, quero me apresentar. Meu nome é Carla da Nóbrega, trabalho na captação de recursos da Associação Civil Greenpeace. Estou na área de captação ha 5 anos.

No dia 30 de agosto houve uma nova reunião na GV e pelo email da Célia resumindo o que ocorreu, relembro que de lá saiu a missão: Promover, desenvolver e regulamentar a atividade de captação de recursos segundo seu Código de Ética e apoiando o Terceiro Setor na construção de uma sociedade melhor.” E a decisão de que chamaríamos mesmo ABCR.

A mensagem 344 (Sim! Foram muitas mensagens discutindo o código de ética, o nome da Associação, os estatutos) foi escrita pela Célia, chamando para a reunião dia 5 de novembro, para aprovações, encaminhamentos e registro da associação. Nesta época a lista já tinha 89 nomes.

No dia 31 de outubro envio uma versão do código de ética e no dia 3 de novembro René a melhora sensivelmente. Tudo via web, um trabalho realmente bonito de se (re)ver essa gestação da ABCR. A reunião seria 5 de novembro mas foi adiada para 7 de dezembro pois ainda se debatia muito o nome da organização pela lista. Também o código e os estatutos. Mas a criatividade sobre o nome era imensa. ABCARE, Abracadabra, Captar, ANCR, ACRB… emails e mais emails.

Final de 1999, em uma sala da Fundação Getúlio Vargas lá estávamos 19 participantes. Decidimos que os associados que entrassem nos próximos 6 meses seriam considerados sócios fundadores. No dia 13 de dezembro, com certo atraso, mando a mensagem (de número 473) falando da reunião onde oficializamos a criação da ABCR e termino assim: A reunião foi muito boa, realmente. Vida longa à ABCR!

E o resto é história.

abcr

* Dedico este artigo a Célia, René, Cristina, Carla e Rodrigo. Desde então vocês fazem parte da minha história.

 

 

 

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