Não sei se você já ouviu falar da Eva mitocondrial. Pura ciência. Eu tenho gostado de acompanhar esses avanços a partir do DNA e tudo que sai sobre Neandertais ou algo dos últimos 100 mil anos. Tudo isso me interessa.

Mas vamos começar com a ajuda do GePeTo: A Eva mitocondrial é a ancestral feminina mais recente da qual todo o DNA mitocondrial humano atual pode ser rastreado, tendo vivido na África há cerca de 150 a 200 mil anos atrás.

Este termo refere-se a um fenômeno genético, e não a uma única mulher que foi a primeira em sua época. As mitocôndrias, organelas nas células com seu próprio DNA, são herdadas apenas pela mãe, o que permite rastrear essa linhagem materna única até essa ancestral comum.

Essa Eva é obviamente inspirada na outra, mundialmente conhecida e descrita em três das principais religiões do planeta. E eu vou falar dela um pouco, junto com seu companheiro, Adão.

Se você caiu aqui de paraquedas, eu recomendo os primeiros artigos desta saga. E assim não vai achar tão estranho eu estar aqui no Linkedin falando da Eva.

Anteriormente eu comentei sobre as mitologias e as simbologias desses primeiros personagens que constam no Gênesis na bĩblia. Puxei uma das possíveis interpretações onde Caim representa povos agricultores e Abel as tribos nômades. Que conste que não inventei isso, é só cavar um pouco essas e outras ideias interessantes pela web.

O conjunto de histórias encontradas em muitas partes do mundo trazem um casal primevo. O nosso casal famoso tem como castigo a expulsão do paraíso. Como eu li uma vez em um livro: que religião maldita onde já começamos fazendo algo errado e sendo expulsos… E concordo.

Mas se formos ver isso como um conjunto de narrativas que eram passadas de geração em geração, e lembrando que isso aconteceu antes da escrita, eu diria que essa história queria (e quer) nos contar outra coisa.

A expulsão do paraíso pode facilmente ser interpretada como o momento, lá atrás, onde nós deixamos de estar integrados à natureza. Deixarmos de ser mais um grupo de macacos, para nos desconectarmos dessa natureza e trabalhar para fazer comida. Essa parte do Gênesis é especialmente interessante:

Com o suor do seu rosto você comerá o seu pão, até que volte à terra, visto que dela foi tirado.

Podemos então dizer que Adão e Eva são simbolicamente esse momento onde macacos/hominídeos abandonamos o ecossistema natural que vivĩamos (no caso, comprovadamente as savanas africanas).

Então migrarmos pelo planeta durante dezenas de milhares de anos, como grupos nômades.

Ainda coexistindo com a natureza. Ainda longe de assentar a cabeça e o corpo nas primeiras agriculturas de 10 mil anos atrás. E ainda muito longe de registrar tudo isso nas plaquinhas sumérias ou logo depois, nos papiros egípcios.

Quando essas histórias começaram a ser escritas, milhares de pessoas já tinham contado umas às outras, no decorrer das gerações, aquilo que parecia mais interessante de ser dito.

E por isso o quarteto fantástico Adão, Eva, Caim e Abel são pra mim meu grande hobby, mesmo com os irmãos não tendo nem duas páginas inteiras nas escrituras bíblicas. Eu fico pensando quantas histórias foram contadas em milënios, que acabaram sendo aglutinadas nesses 4 personagens e poucas páginas.

Mas o foco aqui é falar sobre o ecossistema social. Simbolicamente Adão e Eva não têm muito a nos dizer a respeito, foram, repito, simbolicamente, os responsáveis por deixarmos de fazer parte do ecossistema natural.

Deixamos de pertencer ao ecossistema savana para participarmos em todo e qualquer outro ecossistema natural do mundo, mas não mais como parte e sim como vírus. No mínimo como um invasor. Hoje em dia tipo um câncer, basta ver o estrago que fizemos.

Eu adoraria falar mais sobre Eva. Uma mulher que viveu o primeiro patriarcado, a origem de muitas outras submissões e humilhações, que ainda hoje a escantearam e até a culpam pela simbólica expulsão do paraíso.

Mas o tema aqui é outro, o ecossistema social. E a pergunta que fica, sempre no campo simbólico, é: como foi pra ela ter um filho morto e o outro ter sido o assassino? Não achei nada a respeito disso  e se você encontrar algo, em que campo for (psicologia, antropologia, sociologia), me avise.

Se Eva aguentou a expulsão causada pelo marido, e seguiu com ele, o que faria com o filho assassino? Eu tendo a acreditar que a mãe o perdoou, como todas as mães fazem. Mas vejo também que somos os descendentes de Caim, carregamos a culpa. Para ampliar o sofrimento, não perdoamos.

Porque no patriarcado da guerra, não se perdoa, se avança.

No ecossistema social que estamos hoje, somos o Caim culpado e o Caim que não perdoa. E assim estamos. Por enquanto. Eu acho que a Eva simbólica, a mãe, a mulher, nos sussurra coisas. Adão (e Caim) nos gritam que temos que avançar, mas o mundo é redondo e finito. O planeta Gaia (e Eva) parecem propor outras coisas.

A mãe, Eva/Gaia nos diz: já conquistaram tudo, já mapearam tudo, já deram a volta ao cĩrculo e chegaram ao mesmo lugar. O que mais falta fazer? A mulher de Adão diria, no fim do dia, que a brincadeira acabou, vem comer, vem dormir.

A mãe que perdoa tudo, mas que não consta da história.

Somos os descendentes do Caim e do Adão simbólicos, que nos disseram: sigam. Sigam conquistando, usurpando, lutando até a morte. Mas o mundo é um cĩrculo. Chegamos ao mesmo lugar.

Somos também descendentes de Eva simbólica, mãe do Caim mas também do Abel simbólicos. E se a fraternidade foi assassinada, o amor maternal segue.

Gaia perdoa o homem. Mas o homem não perdoa o homem. E mesmo quando o último homem matar o penúltimo homem, Gaia seguirá.

A Eva simbólica, se dermos espaço e voz para ela, nos dirá que no ecossistema social criado pelo homem, há espaço para todo mundo, abundantemente.

Enquanto ela não tem voz, nosso ecossistema social é um lugar bastante violento mesmo. Até quando aparentemente não é, está sendo violento. Pela nossa conivência, pela nossa cumplicidade.

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