A periferia é o centro

omar junior 2

“Muita hipocrisia, não é, doutor ?”. Sebastião tinha toda a razão. Ele estava cansado. Seus amigos estavam cansados. O certo é ‘eles estavam putos’. Mas vamos manter a elegância deste texto.

Sebastião é encarregado de obra. Nos fins de semana ele vira Tião. Tião da percussão. Odeia quando chegam os engenheiros, os arquitetos, e já gritam : “Tião! Vem cá!” Ele não deixa que seus funcionários o chamem de Tião. Não na obra. Tião, só o da percussão. Só nos fins de semana. Mas os engenheiros – os ‘almofadinhas’, como ele diz- nunca respeitaram isso. “Pô, como tem Tião em obra, né Tião?” falou o garoto recém formado. Mal sabe misturar cimento, mas já sabe que tem muito Tião em obra. O almofadinha.

Passadas duas semanas, almofadinha vem com uma grande idéia : “Exerça sua cidadania: Limpe os pés” é o cartaz que o almofadinha coloca ao lado dos capacetes. Sebastião foi falar com o almofadinha que os pés estão limpos e que os funcionários se sentiram ofendidos. Não são gente suja. “ Deixa de ser burro, Tião !” “Sebastião!” pensou Sebastião – “ Eu só falei pra que vocês limpassem os pés naquele capacho antes de entrar na sala. É só um toque de cidadania, entendeu?” “O capacho, entendi agora doutor. Vou falar pra eles. Mas isso de cidadania… Perguntaram pra mim e eu falei que queria dizer pra fazer as coisas certas, se não, dá problema.” “ Tu é burro mesmo, Tião. Vai trabalhar vai. Olha: Meu irmão tá nisso de trabalhar com cidadania pra favelado. Vou falar pra ele ir na tua favela – ‘cê mora em favela né Tião?”. Sebastião saiu cansado. No fim de semana apareceram almofadinhas mirins lá na comunidade. Falaram sobre ‘cidadania’ para os ‘excluídos’, o nome politicamente correto para pobres, miseráveis. Saíram rindo. O filho do Sebastião ficou ‘cansado’ como o pai…

Cansado estou eu Sebastião. ‘Puto’, acabando com a elegância deste texto. Alguém perguntou se os tais ‘excluídos’ querem se ‘incluir’ nessa hipocrisia ? Alguém deixou de lado os termos elegantes para dizer : “Rapaziada, cidadania é você ter direitos e deveres plenos. Vocês tem estes e estes direitos e estes e estes deveres”. Está doente ? Você tem direito a um hospital decente. Policiais revistaram teu filho ontem e deram um ‘cacete’ nele ? Você tem o direito de reclamar de forma incógnita na ouvidoria. A polícia tem o dever de investigar e punir.

Você tem deveres também. Mas depois da ditadura, a ‘classe pensante’ preferiu não tocar muito nesse assunto pois pareceria coisa de militar. Mas tem deveres. Precisam ser cumpridos. Sinal vermelho : dever de parar. Sinal verde : dever de andar (mas almofadinha ‘se acha’ no direito…) Cidadania é direitos e deveres. Sem firulas. Isso os caras não explicam. Porque nem sabem.

É que a ‘classe pensante’ prefere falar bonito. Vai de carro na favela nos fins de semana, entrega uns agasalhos surrados, faz uma reunião com os menores (adolescente é filho da classe média, morador de favela é menor. Os com pena chamam de menor carente). Sentam-se em círculo e começam a perguntar : “Alguém aqui sabe o que é cidadania?” Depois do silêncio, os voluntários (nova moda: seja voluntário neste ano do voluntariado!) riem um pouco, e com aquela cara de “elite esclarecida voluntária com pena da ignorância desses excluídos” começam a explicar : “ Cidadania é ser solidário. Abraçar o social. Unir-se em redes e parcerias para que exista uma melhoria das condições de vida do ser humano e do nosso planeta. Que tal se fizéssemos uma campanha de reciclagem de lixo?” Um adolescente da comunidade, mais atrevido, avisa que estão fazendo uma na escola municipal. Mas os almofadinhas interrompem : “ Não importa! Quanto mais melhor! Vamos fazer uma aqui na favela. Semana que vem a gente passa pra recolher as latas e plásticos e leva lá na Vila Madalena, que tem uma cooperativa maneira”. Aquele atrevido falou baixo – e ninguém ouviu – que a campanha é para comprar um computador para a escola…

Pobre vai para o hospital e fica sem coragem de reclamar da fila. Pensa que já que é de graça, não pode reclamar. Só que não é de graça. Ele paga. Se não paga no imposto do salário porque está desempregado, paga no imposto do arroz, do leite, do Nescau e da pinga. Pobre acha que o filho não aprende porque é burro. Mas aí lembra também que a escola é de graça e por isso é ruim. Então esquece disso tudo e acha mesmo que o filho é burro. Só que o filho não é burro e a escola não é de graça. Ela é cara. Cada leite, cada fósforo, cada botijão de gás, pagam essa escola. Só que a escola é fraca. Mas pobre não exige porque não se sente dono. Acha que é gratuita, que é do governo. E pobre não sabe que tem direitos e que a escola é dele. Soube agora que tem essa cidadania e que virou excluído.

Excluído de quê ? de quem ? Onde estão os incluídos ? Estão em escola cara ? Ah ! Então pobre vai estudar em escola cara também ? “Não burro ! Você vai ficar na sua escola pública, só que vamos dar aulas de cidadania!” Incluído não pega ônibus. Vai de carro. Incluído reclama do lotação, diz que é ilegal. Que causa acidentes. Foi só pobre economizar e comprar uma Besta, oferecer para o pessoal da comunidade transporte sentado em vez do ônibus que atrasa, está lotado e chacoalha, que a besta virou o pobre. Pior, virou ilegal, virou infrator.

A periferia é o centro. Porque lá ele está incluído. Porque lá Sebastião é o rei do samba. Porque o filho do Sebastião trabalha no centro comunitário e o sobrinho, junto com os amigos, estão quase conseguindo o computador para a escola municipal. É o centro porque lá a comunidade se organiza para tirar os traficantes e tentar livrar seus filhos da grana da droga. Uma grana que mata antes dos 20. Pobre sabe o nome do traficante, mora perto dele e reza para que o filho não caia no conto do tênis importado. Pobre sabe que o traficante, que empinava pipa com ele faz 15 anos lá no morro, está cheio da grana. Grana dos almofadinhas que cheiram pó e gritam com os subordinados.

A periferia é o centro. Porque o outro centro, aquele das avenidas e dos engravatados, pobre chega de cabeça baixa. Na comunidade ninguém anda de cabeça baixa. Só aquele que se perdeu na bebida depois de anos desempregado. Mas também para ele pobre tem comida e entrega num prato. Pobre se organiza, faz rifa e compra berço e mantimentos para a menina que foi estuprada mas não aborta porque é crente. Pobre se junta, faz mutirão para pintar a creche. Pobre só não sabe ainda que tem muitos direitos. Ainda não sabe e se depender da ‘cidadania’ não vai saber.

A periferia está se organizando. Está cansada, mas se organiza. Pobre quer que o filho estude, mesmo que ele seja burro, mesmo que a escola seja ruim. Pobre quer ler. E um dia vai ler em algum lugar seus direitos. Um dia vai dizer o que me disse Sebastião naquele sábado :

– Muita hipocrisia né, doutor?

– Não sou doutor, Sebastião !

– E pra você, eu sou Tião, meu amigo ! Tião da Percussão !

E depois de matarmos aquela feijoada da Dona Inês, Sebastião caiu no samba e eu peguei meu carro e voltei para casa. Eu estava puto, mas Sebastião, ou melhor, Tião da percussão, dava o ‘breque’ e sorria.

 

( artigo publicado no novae em 2001)

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