Doações on the rocks

70d896b07344fc28_whiskeyEste é o terceiro artigo (de uma série de 5) que trata da cultura do doar no Brasil. Ainda sob o impacto da onda dos baldes de gelo, foram realizadas 4 pesquisas singelas com amigos próximos, para buscar entender o que move as pessoas a doar. Os motivos para a realização dessas pesquisas são alguns dados gerados por levantamentos recentes sobre o tema do doar. O brasileiro doa pouco ou muito? Quais os motivos?

Algo que parece óbvio mas só quando vemos em uma pesquisa é que percebemos a verdade: As pessoas doam somente quando são solicitadas a isso.

Uma pesquisa do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS), lançada em março, gerou na mídia títulos como este: Brasileiro doa mais para igrejas e pedintes. Foram entrevistadas 3.000 pessoas de 70 cidades. 30% delas doam para igrejas, outras 30% doam para pedintes. E somente 14% doam para ONGS. Uma primeira leitura nos faz acreditar que decidem não doar para ONGs. Mas se pararmos pra pensar, percebemos que doam para igrejas e pedintes porque estes… pedem. E as ONGs no Brasil estão ainda se estruturando para criar uma cultura do solicitar. Então temos já uma primeira verdade: um dos motivos do não doar é a baixa cultura do pedir.

A ideia de realizarmos testes pretendia eliminar ao menos esse problema (pediríamos). Quais seriam os desafios? O que faria as pessoas doarem ou não?

A mesma pesquisa feita do IDIS mostra que 58% das pessoas não doam porque não tem dinheiro. Será? Ou será que essa é a resposta que damos para toda e qualquer situação, inclusive quando nos pedem, por exemplo, dinheiro no semáforo? Os outros 42% dos entrevistados responderam de forma curiosa:  Um terço deles disse que é porque não confiam nas organizações. E metade disse que não doam porque ninguem solicitou. De novo caimos no dilema: Será que é verdade que não doam porque não tem dinheiro? Ou que não confiam? Ou que ninguem solicitou? Não é que estamos chamando a nós mesmos de mentirosos. Mas essa falta de cultura do doar precisa também ultrapassar a barreira das desculpas, e sabemos todos, somos mestres nisso. Então descobrimos um conjunto de possíveis mentiras. Teríamos que averiguar se não temos dinheiro e se não confiamos.

A tarefa seria árdua. Envolver as pessoas, não focando nos motivos de porque não doam, mas sim nos exemplos. Doar inspirando o outro a fazer o mesmo. Meus amigos tem ao menos algum dinheiro pra doar e confiam, se não nas Ongs, ao menos em mim. Sendo assim, meus testes dariam 100% de resultado? Eu sabia que não. Mas estava curioso nos porquês.

Os desafios criados foram estes:

– O desafio padrão, que para quem não sabe, consistia em doar 100 dólares para a ALS ou levar um balde de gelo e doar só 10 dólares. Sim, o desafio é esse, o que saiu na mídia é só a parte engraçada.

– Um desafio tropicalizado: Publicar uma receita de drink envolvendo gelo, escolher uma ONG de um conjunto de mais de 40 ONGs pré-selecionadas e chamar mais 3 amigos para fazer o mesmo.

– Um desafio sem gelo: Escolher 3 amigos que doarão para uma ONG e o desafiante doa mais 10 reais para cada doação feita por esses 3 amigos.

– Um desafio de campanha. Em época de eleições, aproveitei pra doar para minha candidata à presidência e chamei outros 3 amigos que sei que votam nela, para fazerem o mesmo. Escolhendo mais 3 pessoas que seguissem o desafio, gerando assim uma progressão geométrica de doadores pessoa física, algo saudável para essas campanhas de caixas 2 e dinheiros não contabilizados.

Os resultados destas pesquisas continuam me surpreendendo. Não posso chamar de resultados finais porque sei que alguns fios destes desafios seguem. Outros se encerraram completamente. O desafio de campanha por exemplo, surpreendentemente, teve zero de adesão. E escolhi amigos altamente envolvidos com Marina, que sabem do meu desejo (e o dela) de buscar muitos doando pouco ao invés de poucos doando muito.

Se há uma possibilidade jurídica de que nas eleições de 2016 se decida por proibir doações de empresas e aceitar somente doações de pessoas físicas, estamos mal, muito mal. Eu já acompanho isso faz 3 eleições e os resultados são pífios. Imagino (há que se ir mais a fundo nisso) que seja porque na prática, as pessoas não se veem contribuindo com candidatos. Eles devem ter lá suas estruturas partidárias que os sustentem. E é verdade que tem, existem os fundos partidários, inclusive. Mas do meu ponto de vista, um candidato que tivesse o apoio financeiro de milhares de pessoas geraria uma espiral positiva: mais dinheiro, mais votos, mais dinheiro. É assim nos EUA.

Vamos sair agora do campo eleitoral e entrar no mundo das ONGs. As três pesquisas que realizei tem dados interessantes. A primeira, a padrão, gerou comentários variados. Fiz a proposta a 3 amigos, superengajados com a cultura de doação. Portanto nem imaginei que teria problemas. Minha ideia era só dar o primeiro passo na progressão geométrica e assim alcançar mais rapidamente os 9 que viriam, resultado dos primeiros 3.

Minhas primeiras surpresas já aconteceram aí. O primeiro a responder já alertou que não iria nem doar nem usar o balde de gelo. Não entrarei em detalhes porque não quero perder o amigo, mas fiquei bastante desiludido por ser tão rápido em dizer um não. Isso me fez perceber que aqui no Brasil as pessoas estão mais preocupadas por suas verdades e crenças do que por uma fidelidade a um amigo. Nos EUA as pessoas doam porque o amigo pediu. Muito menos do que por saber ou querer apoiar determinada ONG. Lá, se o amigo indicou, é bom, porque eu confio no amigo. Aqui é bastante diferente.

Os outros dois amigos foram doadores, o que gerou um resultado positivo.  O primeiro seguiu todo o figurino, balde de gelo e tudo. E no prazo! A outra amiga demorou mas doou. Só que não seguiu, desafiando outras 3 pessoas. Eu fiz as contas aqui. Se os 3 tivessem seguido o desafio e cada um dos 3 seguintes também, esses 100 iniciais dariam cinco milhões, novecentos e quatro mil e novencentos em 10 dias. O que desistiu de primeira, eliminou a possibilidade de se arrecadar, através dele, um milhão, novecentos e sessenta e oito mil e trezentos.

É a boa e velha progressão geométrica. Quando fiz o primeiro artigo sobre o tema, a arrecadação da ALS nos EUA estava em 35 milhões de dólares. No dia seguinte, quando foi publicado no Brasilpost, já eram 70 milhões. Porque? Simples. Progressão geométrica de base 2, oras. Dobrando a cada dia.

Aqui uma mensagem de “você tem 24 horas” não é levada muito a sério, essa é a verdade. Então no outro desafio que não envolvia baldes de gelo mas sim uma receita de drink com gelo, foquei a mensagem também no fazer a doação em 24 horas. Tive um resultado satisfatório. 4 dos 6 aceitaram o desafio. Esses dois, grandes amigos, me responderam em off que achavam isso um exercício de vaidade que não queriam se envolver.

Eu não sabia muito como interpretar isso, mas a conclusão que cheguei é a de que nós brasileiros não entendemos nossa força de exemplo. E associamos a doação com uma espécie de expiação do pecado. Então fazemos isso escondido, como um castigo necessário. Falar abertamente que se doa para alguma causa é quase uma heresia, um esnobismo, uma vaidade. Eu acho isso uma tremenda besteira. E fiquei de falar com esses amigos a respeito do assunto, um dia.

Resta-nos o desafio do matching. Onde minha ideia era não envolver gelo mas sim um complemento de 10 reais a cada doação feita pelos desafiados. Escolhi a dedo 5 mulheres muito especiais (entre elas minha mulher) pois algo me dizia que essa ideia fluiria melhor com mulheres. E deu certo! Pelo menos foi a primeira vez que consegui que todos do primeiro grau doassem. Tá certo, fiz mais pressão, fiz mais propaganda. Assim que doavam, em seguida eu fazia a doação dos 10 reais adicionais e publicava abaixo das doações delas, animando as outras pessoas que tinham sido desafiadas por elas.

Foi uma semana divertida. Aproveitei o gancho do balde de gelo, deixei de olhar aquilo tudo passivamente e parti para fazer coisas que eu acredito. Somando tudo, doei 100 dólares pra ALS, 50 reais pra Marina e 60 reais para ongs diversas (10 reais cada). Um outro dado importante disso tudo: Isso me custou poucos minutos da vida. Tenho conta nas principais plataformas de pagamento. Gosto mais do paypal porque com a senha o processo é muito rápido mesmo, não preciso saber o código verificador do cartão, nem muito menos preencher todos os números, etc. Eu imagino que se eu tivesse que preencher muitos dados, isso me cansaria mais também.

A plataforma Think&Love, que contem as principais ONGs e que foi o lugar que eu sugeri que meus amigos fizessem a doação, me informou que já haviam arrecadado através desses desafios-teste 985 reais, em 4 dias. Meus 60 reais haviam gerado quase mil. Eu achei incrível. Longe dos milhões dos EUA, mas incrível.

Então vamos concluir isso aqui. Começando pelo fim: Progressões geométricas funcionam! E para doarmos mais e melhor, os sistemas online tem que ser facilitados. O da ALS não só é fácil como automaticamente chega uma carta da presidente pra você. Pra que mudemos a cultura do doar aqui no Brasil temos que ser exemplos. Sair do armário. Mostrar aos amigos que doamos, e que eles se inspirem.  Doar para candidatos ainda é uma exceção no Brasil e isso só vai começar a mudar assim que você mesmo doe para o seu candidato.

A ideia do desafio ainda é uma novidade no Brasil. A gente não leva isso muito a sério. Pelo menos não meus amigos. Lá fora isso é uma questão de honra. Lá se cumpre o combinado e no prazo. Aqui imagino que funcionará de forma mais flexível, prazos maiores, uma certa insistência… Mas o matching funcionou. A ideia de complementarmos a doação gerou uma espiral positiva e um compromisso inclusive em continuar.

Eu poderia agora gastar energia e tempo com aqueles amigos que não doaram. Mas vou é celebrar com os que o fizeram. E assim, talvez inspire, pelo exemplo, alguns outros. Valeu Rafa, Nina, Renatinho, Renato, Marcio, Andrew, Tere, Heloise, Paula, Raquel e Thais. Vocês são meus heróis e juntos vamos convencer mais pessoas a doar. Doando.

 

 

 

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