Epifania (outro trecho do livro Sabático)


Quando eu não tinha nem 20 anos, estava morando em Barcelona e passeava numa deliciosa tarde de outono pelas Ramblas, tive uma epifania. Não sabe o que é epifania? Pois você vai ter alguma no decorrer de seu sabático, tenho certeza. Epifania é uma súbita sensação de realização ou compreensão da essência das coisas ou da vida. Destaque para o “súbita sensação”, porque não pense que você viverá o nirvana ou vai viver feliz para sempre. Essa sensação se esvai com a mesma rapidez que chega, mas foi genial, acredite.

Como eu disse, estava passeando pelas ramblas em Barcelona. Livre, absolutamente livre. Eu havia chegado na cidade fazia uns meses, meu objetivo de começar a faculdade tinha sido adiado por um ano por uns problemas burocráticos que nem compensa contar. Quando eu soube, nem fiquei muito chateado. Eu não estava com pressa e algo me dizia que aquele ano em Barcelona seria bom, como de fato foi. Foi um sabático sem ser, um período sem obrigações, sem que eu tivesse planejado isso.
Mas voltemos à epifania: Enquanto eu passeava pela cidade, absolutamente fascinado com os lugares, cheiros e pessoas, percebi que estava, naquele momento, absolutamente livre. Eu não tinha nenhuma obrigação, ninguém pra dar satisfações (fui sozinho pra Barcelona), nenhuma namorada, nenhum emprego (vivia de umas economias ganhas no verão trabalhando como garçon), nenhuma faculdade, curso, escola, nada. A sensação de absoluta liberdade foi… paralisante! E então caiu a ficha. A liberdade absoluta não serve pra nada, a não ser para percebermos que vale a pena seguir uma direção.

A imagem que me veio na cabeça, essa liberdade absoluta, era como se eu estivesse no vácuo, no espaço sideral, livre, sem nada que me prendesse. E se eu era tão livre assim, qualquer coisa que eu fizesse a partir daí seria genial, certo? Então, ao pensar nas possibilidades, que eram milhares, eram infinitas, era como se cada uma delas fosse uma corda que me puxasse para uma direção. Pegar um trem e ir pra Paris? Ou um avião e ir pro Tibet? Buscar um curso de guitarra flamenca? Trabalhar de garçon de novo pra juntar mais dinheiro? Procurar um emprego numa agência de publicidade? Montar uma associação de estudantes brasileiros? Ir ao cinema? Tomar um sorvete? Cada opção era uma corda que me puxava enquanto eu estava no vácuo, absolutamente livre.
Quem lembra de física vai perceber que tantas cordas puxando em direções diferentes, com a mesma força, geram um ser parado, absolutamente parado. E isso não tinha a menor graça. Tudo isso que estou descrevendo teve a duração de meio segundo e fui do céu ao inferno e ao céu novamente nesse curto espaço de tempo. Eu percebi minha absoluta liberdade e como isso me paralisava, absolutamente.

Eu carrego comigo, desde então, esse desafio de buscar a liberdade, mas que ela não seja absoluta, que exista ao menos uma corda, ou um conjunto delas, que me leve a alguma direção. E aí sim eu vivencio a liberdade, o fluxo que me leva para um lado e não para outro. Seguindo o fluxo, flanando, boiando pelo rio, dá pra chegar a algum lugar.
Em Barcelona, naquele ano, decidi ali mesmo que das infinitas possibilidades, eu escolheria algumas. Descartei ir pra outros países já que mal tinha conhecido Barcelona e as redondezas. Decidi viver mais um mês sem trabalhar até achar um trabalho de meio período que me permitisse depois conciliar com a faculdade. Decidi que conheceria o máximo de gente possível, e assim ter amigos independentemente dos amigos que viria a ter na universidade. E assim foi. Essas poucas decisões, genéricas o suficiente, mas decisões que eliminavam todas as outras, me deram uma boa dose de liberdade. Foi o melhor ano que vivi em Barcelona.

Quando tomamos nossas decisões no campo profissional, a liberdade não é um elemento em questão. Decidimos qual faculdade, qual mestrado, qual emprego, quais as condições, onde queremos chegar. Essas linhas mestras nos orientam para caminharmos em determinada direção. A dica que quero passar é que em um sabático ou qualquer tempo livre cabe a mesma estratégia. Até pra não fazer nada é importante você esvaziar sua mente de outras opções, pois como disse, a liberdade absoluta trava.
Isto não é uma contradição, entenda. O que quero dizer é que existe uma coisa chamada intenção. Os religiosos também falam do livre arbítrio. E existe a frase: Disciplina é liberdade. São coisas que se complementam.

A intenção é um esforço para escolher mentalmente um plano de ação a seguir. Você pode ter a intenção de fazer um MBA ou a intenção de não fazer nada. Mas existe um plano, que pode ser vago, nebuloso, mas é um plano. Isso te guia e te move.
O livre arbítrio é uma ideia interessante. Muitas vezes pensei nisso como o verdadeiro presente de Deus. E esse presente carrega consigo a responsabilidade da decisão. Qualquer que seja ela, você tem o apoio divino, mas tome-a. Decidir uma coisa ou outra, pois o problema é adiar a decisão eternamente. Isso deve ser o inferno. E quantos de nós vivemos esse inferno na Terra?

Agora vem o que mais demorei a entender: Disciplina é liberdade. Pra mim, durante quase toda a minha vida, disciplina era sinal de rigidez, pouca criatividade, alienação. Quem me conhece vai me associar rapidamente a um indisciplinado e eu confesso que sempre tive um certo orgulho disso. Mas meu erro foi que eu entendia a disciplina de forma errada. A disciplina não precisa ser careta, por assim dizer.

Um exemplo objetivo é a disciplina que estou vivendo neste sabático, enquanto escrevo este livro. Eu priorizei fazer 3 coisas todo dia, uma delas é escrever ao menos 1700 palavras diariamente. Essa disciplina não me ocupa muito tempo, me dá liberdade para fazer qualquer outra coisa sem culpa. Quando não faço essas 3 coisas me sinto mal, com o dia incompleto, não me sinto feliz. Estou por exemplo escrevendo este trecho do livro as 2 da madrugada, pois não conseguiria dormir tranqüilo sem terminar minhas tarefas diárias. Essa disciplina, nada careta, nada rígida (posso escrever logo que acordo ou no meio da madrugada), me ajuda a me sentir verdadeiramente livre. Se não fosse por essas decisões, estaria assistindo TV e me culpando no meio da minha absoluta liberdade.

Você que está planejando fazer um sabático, pense nisso: defina algumas poucas coisas pra fazer nesse período. Mesmo que uma das coisas seja não fazer nada, mas decida “fazer nada”, percebe a diferença? Você pode decidir fazer um curso de cerâmica nos primeiros meses e uma viagem a Paris nos últimos meses. São ideias bastante amplas onde cabe uma liberdade bem grande. Mas jamais decida parar de trabalhar para não fazer nada. Em poucos dias você estará deitado no sofá assistindo a novela. E pra isso, convenhamos, não vale a pena.

Uma amiga minha teve um sabático sui generis. Ficou imóvel em função de um problema na coluna. Durante os meses que ficou olhando pro teto e pensando na vida, tomou decisões. Usou seu sabático forçado de forma produtiva, foi disciplinada dentro da liberdade do pensamento, já que não tinha a liberdade de movimento.

Decidiu que o que existia de mais precioso em sua vida era o seu tempo. E que não o venderia por qualquer preço nem para qualquer coisa. Hoje ela escolhe os trabalhos assim como os passeios com os amigos. Fica mais com sua filha e privilegia os tempos sozinha. Tudo isso foi resultado das conclusões que tirou enquanto estava imóvel. Aquele tempo todo inútil a fez perceber o valor do tempo presente.

Outra amiga decidiu fazer um sabático dentro de outro sabático. O plano dela era conhecer as experiências de ecovilas que tinha ouvido falar por aí. As viagens incluíam India, Escócia, Africa do Sul e vários outros países. Seu plano era bem montado, ela tinha tirado licença de um ano no seu trabalho (e tinha sido uma negociação difícil, pela novidade) e por isso apesar de ser um ano, as coisas estavam bem desenhadas para poder visitar todos os lugares que havia previsto.

Chegando na India, mais ou menos no meio do sabático, ela estava exausta. Seu passaporte havia colecionado mais de 10 carimbos de países diferentes, havia conhecido pessoas interessantíssimas e lugares maravilhosos, mas quando começava a habituar-se com o lugar, já tinha que preparar as malas.

Tomou uma decisão radical. Faria um mês de meditação em um desses lugares exóticos no meio da Índia. Mas não era qualquer meditação, ela ficaria 10 dias em silêncio! Era um programa que eu, indisciplinado que sou, jamais conseguiria fazer. Acordavam cedo, sentavam-se em posição de lótus. Uma parada de 10 minutos no meio da manhã, mais meditação. Almoço também em silêncio, mais meditação. Mesma coisa a tarde. Eu me angustio só de pensar. Pra ela foi sensacional. Ela usou esse tempo pra decantar as mil ideias que tinha na cabeça, após os vários lugares visitados. Com a meditação ela não teve que continuar planejando, organizando, decidindo. Ela conseguiu harmonizar-se com as ideias de ecovila que tinha e terminou o período sabático antes do previsto. Hoje tem uma ecovila no interior do Paraná e ainda tem aquele ar de gente sábia que faz meditação megablaster.

A história dessa minha amiga é um dos exemplos mais claros da conexão entre intenção, livre arbítrio e disciplina como liberdade. Sua intenção era clara: conhecer ecovilas. Teve o livre arbítrio de no meio do sabático mudar de planos, e a disciplina da meditação a fez ter a liberdade de seguir com seu sonho.

Um executivo de muito sucesso em tudo que faz disse em uma entrevista que suas melhores ideias ocorreram quando não estava fazendo nada. Uma foi no meio de uma viagem de férias com a esposa em Paris. Outra ocorreu no meio de um banho quando estava no meio de um sabático. Uma terceira ocorreu numa mesa de bar com uns amigos, também de férias prolongadas, entre um empreendimento e outro. Nunca suas boas ideias ocorreram em uma reunião, ou na sua mesa do escritório, nem mesmo nos corredores ou no elevador de suas empresas.

Comigo acontece também assim. Mas eu gero o ambiente adequado para que minhas ideias surjam livres. Elas aparecem sempre, é só deixarmos fluir. Pode ser tomando banho, ou nas ramblas de Barcelona. Ter uma epifania é sorte. Mas basta com preparar o terreno pra sorte vir, que ela vem.

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