Férias sabáticas

(novo trecho do livro sobre sabáticos)

Curioso falarmos sobre férias. Parece haver um entendimento mútuo de que férias é um tempo de descanso e em geral envolve lugares gostosos. Mas mais curioso ainda é como muita gente volta esgotada de suas férias. Os que tem casa na praia ou campo aproveitam o descanso para arrumar aquela cerca ou restaurar o sofá. Com muita freqüência, os casais com filhos aproveitam para recuperar o tempo que não estiveram juntos no decorrer do ano. Tentam com pensar com atividades “radicais”, botes, pranchas, corridas, karts. Muitas emoções, sensações e não raro, algumas luxações. Os casais sem filhos também tem suas aventuras em cidades exóticas, muito rappel, cachoeiras, caminhadas, escaladas. Não nego que devem se divertir. Mas houve de falto algum descanso ao menos mental? Sei que as paisagens são maravilhosas, renovam a alma, recarregam energias. A questão é o ritmo. Existe necessidade desse ritmo?
Um jovem casal de amigos conseguiu conciliar as férias de ambos. Em 10 dias irão para um lugar no meio da selva. Já se organizaram para conhecer umas 10 cachoeiras que estão em um raio de 50 kilometros da pousada. Chegar lá é um dia entre avião, carro e barco. Sair de lá levará outro dia. As caminhadas levarão de 2 a 6 horas para cada cachoeira. Renovarão suas almas, sem dúvida. Terão noites de sono profundo, pelo cansaço físico. Voltarão felizes, exaustos mas felizes.

Outros amigos fizeram anos atrás uma viagem para a Europa. Em 20 dias conheceram (conheceram?) 8 países. Centenas de fotos depois, ao chegarem ao Brasil, foram passar 5 dias no Guarujá, pra descansar de fato. Outro amigo decidiu tirar 15 dias pra ficar em casa. E foi o que fez. Mas as pizzas e os 145 canais a cabo o fizeram engordar 4 kilos.
Todos esses exemplos de férias de baixa qualidade não pretendem desanimar ninguém. Nem pense que há uma forma “correta” de aproveitar as férias. Dá pra pensarmos juntos alguns elementos que consideramos primordiais e que se encaixam tanto numa pausa de 5 minutos entre uma reunião e outra como em um sabático de 2 anos. Vamos falar de algumas delas.

[Menos é mais] Se você consegue ir para a Europa uma vez, poderá ir outras vezes nos próximos anos. Então aproveite a próxima viagem para conhecer de fato os lugares que visita. Cidades como Barcelona ou Paris não podem ser visitadas em 2 dias. Dê o tempo que elas merecem. Reconheça a cara do garçon da cafeteria. Tome seu café ao menos 3 vezes nesses lugares. É assim que você começa a conhecer um lugar.

Aquele casal de amigos que foi pra Europa não sabia me dizer de onde eram várias daquelas igrejas que vimos nas fotos. Pra que isso não é mesmo? Acumular fotos? Acumular cidades visitadas? Não é melhor acumular experiências reais? Em uma de minhas férias fiquei amigo de um garçom em Santorini. Ele só falava grego, mas nossa conversação através da mímica trás agradáveis lembranças até hoje.

Tem também aqueles casos de viagens preparadas, excursões pensadas para você não ter nenhum tempo livre. Na verdade até consta na programação tempo livre, mas são casos para que você faça compras. Minha filha foi com a avó para a Disney que já é em si um templo do tudo ao mesmo tempo agora. O que me surpreendi é que a tarde livre em Miami era onde? Em um shopping. Ambas, ao perceberem a roubada, chamaram um táxi e voltaram para o hotel, exaustas dos dias com Mickey e Minnie.

Os que usam suas férias para ficar em casa devem ter um cuidado redobrado. É muito sedutor aquele sofá. São muito sedutores aqueles canais todos. Mas isso também cansa. As vezes que fiquei deitado no sofá assistindo séries americanas madrugada afora não me garantiram uma sensação de bem estar. Alguma vez fazer isso não é problema. Ontem mesmo fiz isso. Mas já tinha feito meu dia render. Havia escrito meu trecho do livro, havia feito minha caminhada diária, tinha terminado de ler um excelente livro. Um pouco da série Friends foi até um presente pra mim mesmo e gerou boas gargalhadas na madrugada.

Recentemente um amigo meu, professor universitário, viajou de carro, sozinho, pela America do Sul. A beleza de sua viagem é que ele não tinha metas. Não tinha que estar em Santiago no dia tal, ou em Buenos Ayres no domingo que vem. Ele foi indo. Tinha só que voltar antes de começarem as aulas. O resto, foi indo. As vezes conseguia uma conexão web e pedia umas dicas: “Alguma sugestão de vinícolas aqui no sul do Chile?” E ele visitava as que amigos dele indicavam. Deve ter sido uma bela viagem.

[A pé] Eu cheguei à conclusão que uma boa viagem envolve passeios a pé. Isso deve ter a ver com nossa história. Éramos nômades antes de sermos sedentários agricultores. Acho que nossa herança genética fica felizinha quando passeamos por aí.

Minhas melhores férias aconteceram em pequenas cidades cuja principal atividade era passear por suas ruas. Santorini, como já disse, foi uma delas. Optamos por ficar em Santorini ao invés de visitar várias ilhas gregas assim que chegamos naquele porto encantador daquela ilha vulcânica. Minha esposa na época me olhou e ambos concluímos: Vamos ficar aqui uns 10 dias. Outras agradáveis estâncias foram os dias em Olinda, sem nem “descer” para Recife, logo ao lado. Ou Parati que até lembra um pouco Olinda (os puristas que me perdoem, mas algumas ruas são muito parecidas sim).
Já estive também uma semana em Santa Teresa, um bairro do Rio de Janeiro. Um lugar encantador onde muitos cariocas tem medo, por estar cercado de favelas. Mas existem restaurantes maravilhosos, um cinema de bairro super charmoso, bares e botequins, pequenas lojas, vistas deslumbrantes.

Concordo que muitas pessoas tem um jeito diferente de encarar suas férias. Querem adrenalina, querem sentir o máximo de aventura já que suas vidas cotidianas são tão paradas e previsíveis em seus escritórios. Mas a pergunta provocativa que faço é a seguinte: Resolve mudar as férias? Não seria melhor mudar de emprego?

O sucesso do caminho de Santiago, principalmente depois da travessia do Paulo Coelho, é um exemplo de como nos mexe essa coisa de fazer coisas a pé. O caminho em geral leva um mês, aproximadamente 700 quilômetros. São uns 30 quilômetros por dia. Pra pensar na vida enquanto se vê a paisagem.

Não tão desgastante como os 700 quilômetros, existem nossas lindas praias. Você reparou como todo dia, principalmente pela manhã, existem dezenas, as vezes centenas de pessoas andando de um lado a outro na praia? Achamos que isso é exercício, o que não deixa de ser verdade. Mas é na verdade nosso organismo pedindo um tempo, que não é o tempo dos carros, nem dos computadores nem das telas da TV.
Nosso tempo natural é o tempo da caminhada. Nosso ritmo natural é o da respiração tranqüila. Percebe que coisas simples? Claro que é bacana brincar com os filhos na montanha russa, mas aquilo dura menos de 3 minutos. Também é bom pegar uma estrada pra chegar a lugares bacanas. Mas o prazer mesmo, o descanso, o equilíbrio, é no caminhar.

Há muita simbologia aí, claro. O “caminho da vida”, fazer as coisas “passo a passo”, “a pedra no caminho”. Não é a toa. Mesmo depois de viramos sedentários agricultores (e lá se vão uns 6 mil anos), ainda achamos que viver tem a ver com andar, caminhar, percorrer. O oposto disso tem simbologias contraditórias. Podemos pensar em “criar raízes” e isso pode ter uma conotação positiva ou negativa. A própria palavra sedentário não é lá muito aprovada pelo senso comum. Já imaginamos um gordo no sofá quando lemos a palavra. Mas, antropologicamente somos sendentários. Inventamos a agricultura, foi criada a civilização, nos habituamos a trabalhar em lugares que nos pagam salários, moramos em ocas modernas chamadas casas ou apartamentos. Nossa genética nos pede um pouco de nomadismo, nos pede novos lugares. E é o que buscamos nas férias.

[novos lugares]
Férias é quase sinônimo de lugar diferente. Tirando aqueles que vão pra suas casas de praia ou de campo, a grande maioria dos mortais vai pra lugares novos ou em busca de novas experiências. Mesmo aqueles com suas casas de férias costumam convidar novas pessoas e aí criarem novas sensações, novas ou mais fortes amizades. Se pensarmos lugares como novas sensações e experiências, cabe até aquele que pega as férias pra ficar em casa. Ele, como qualquer um, está em busca de novas experiências, mesmo que nas quatro paredes de seu lar.

A indústria do turismo trabalha de forma muito organizada principalmente em cidades turísticas. Hotéis maravilhosos, como monitores para adultos e crianças. Excursões de jipe, de canoa, de ônibus, de barco, de jegue, de camelo. Restaurantes com promoções, museus com lojas, bares com coquetéis exclusivos. Há uma metralhadora de mensagens nos atingindo com compre, consuma, gaste. E é claro, muitas pessoas vivem disso. Não estou aqui promovendo uma utopia contra o consumo, até porque queremos comer em lugares diferentes, trazer “recuerdos”, comprar aquele pôster da exposição do museu. Mas … precisa tanto?

Há uma diferença enorme quando conhecemos alguém na cidade que visitamos não é mesmo? Qualquer um percebe a diferença. E a diferença é simples. Nosso amigo nos leva em lugares para não turistas. É tudo o que queremos. Somos turistas mas não queremos ser considerados turistas. Por algo simples: queremos definir nós mesmos nossos ritmos. Não quero almoçar onde todos os turistas almoçam nem na mesma hora que eles, nem quero tomar um coquetel exclusivo, quero tomar aquilo que meu amigo bebe, naquele bar onde só vão os que moram lá.

Então o que queremos com lugares diferentes é conhecer como seria nossa vida se morássemos lá. Um turista é um turista em qualquer lugar. Não há nada de diferente de assumir-se turista em Berlin ou Recife. São turistas, empurre-os para o consumo, levem os turistas para os museus, para as praias que todos os outros turistas vão, para os restaurantes de turistas.

Um lugar diferente é na verdade a gente, de um jeito diferente. É basicamente nos olharmos sob um novo ângulo. Tudo acaba por ser uma influência para nós mesmos. Não é externo o processo, é interno. Se nos permitirmos essa abertura, teremos férias muito mais prazerosas e serão um carinho na nossa alma.

Menos é mais, se possível a pé e em lugares diferentes. Simples.

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