Mil colunas e uma lixa de unha

Washington DC Capitol Hill 22Uma vez, em algum desses fóruns de discussão, usei uma metáfora de como sentia meu trabalho quando atuava em espaços hierárquicos: Era como se eu, com uma lixa de unha, tentasse demolir as pesadas colunas das institucionalidades. Mas eu falei isso em tom otimista, não como uma queixa ou um trabalho de Sísifo.

Sísifo fora condenado pelos deuses a realizar um trabalho inútil e sem esperança por toda a eternidade: empurrar sem descanso uma enorme pedra até o alto de uma montanha de onde ela rolaria encosta abaixo para que o absurdo herói mitológico descesse em seguida até o sopé e empurrasse novamente o rochedo até o alto, e assim indefinidamente, numa repetição monótona e interminável através dos tempos. O inferno de Sísifo é a trágica condenação de estar empregado em algo que a nada leva. Ele amara a vida e menosprezara os deuses e a morte. Por tal insolência fora castigado a realizar um trabalho sem esperança. Não. O mito de Sísifo não se encaixava na minha metáfora sobre a lixa. Meu otimismo tinha mais a ver com aquela historinha cafona do beija-flor que levava água em seu bico para apagar o fogo na floresta. Ou a outra história sobre a praia com milhares de estrelas do mar na areia e o jovem que jogava uma a uma de volta às águas. Ao ser perguntado por um velho rabugento se isso iria fazer alguma diferença, ele retrucava dizendo que para aquela estrela do mar recém lançada ao mar fez uma baita diferença.

Tanto a história do beija flor como a das estrelas do mar me soam pedagógicas demais, morais demais. Ouvimos as histórias e sentimos uma culpa, é como se escutássemos um sermão de que devemos fazer nossa parte. Eu acho sermão um saco. Então apesar de gostar das histórias, não as considerei nunca uma lição de vida. Nunca me propus a dar lição de moral e pretendo continuar assim pelos séculos, amém.

Mas estes dias me lembrei de novo da lixa de unha e do momento que pensei nessa metáfora das colunas das hierarquias da civilização. Lembrei como o que eu quis transmitir era principalmente do meu prazer de estar com minha lixa metafórica raspando sutilmente as colunas de mármore. E que mesmo sabendo do trabalho insano, meu barato não era ver as colunas caírem um dia, mas sim vê-las com as marcas sutis de minha lixa e principalmente mais frágeis, mesmo que nanomilimetricamente falando. Era uma sensação de grafitar a coluna com uma tinta invisível e deixar lá. Era um mijar no poste com xixi sem cheiro. Era um prazer silencioso e individualista.

Mas ando com uma sensação diferente estes dias. Pela primeira vez em anos, sinto a presença de outras lixas por aí. Melhor: Sinto a marca invisível de outras lixas quando chego com a minha nas colunas metafóricas das hierarquias. Isso me deu uma sensação de turma, de tribo, de grafitagem coletiva. Não acho que isso vá mudar muito minha solitária ação pelas colunas desse mundão. Não me sinto em idade de buscar meu povo nem nada epopeico assim. É só um quentinho novo que senti. Como que se eu estivesse usando os óculos de ver redes e finalmente visse linhas invisíveis que me fizessem pertencer a um projeto coletivo inconsciente. E olha que sempre achei esses discursos muito new age pro meu ateísmo místico.

Não sei se a idade começa a pesar e as voltas que o mundo dá trazem novamente uma esperança juvenil revisitada. Um frescor de comunhão que não sinto desde os tempos imemoriais da rebeldia adolescente. Porque nós adultos viramos cínicos e aprendemos a desconfiar de qualquer coletivismo, com razão, claro. Mas fica lá no fundo aquela chama acesa, no meio dos ventos cortantes da frieza do mundo pragmático.

Pra ser menos hermético e falar de coisas objetivas, poderia dizer que parte desses meus novos ânimos passam pelas manifestações recentes nas praças de madrid e barcelona, assim como uma manifestação pacífica e heterogênea deste sábado pelas ruas de sampa. Mas eu estaria sendo incompleto em minha definição sobre a retomada das esperanças. Seria ingênuo, quase infantil. Ainda vejo isso tudo com os olhos cínicos da adultice e partes desse circo me soam a repetições dos mesmos erros. Poderia dizer também que minhas incursões recentes por grandes empresas através de algumas palestras sobre mobilização foram mais decisivas para eu perceber as marcas de outras lixas que não as minhas. Mas também não seria só isso. Pois nesses locais também estão, convivendo como trepadeiras, as mais fortes tendências ao aprisionamento de corpos que as instituições, por mais modernas, propõe para seus “colaboradores”. Não. Não seria só isso, nem isso junto com as manifestações, que me faria sentir assim, mais lépido, mais animado com sulcos milimetricamente pouco maiores do que antes nessas colunas pseudo-perenes das institucionalidades hierárquicas.

Mas talvez sem querer eu tenha descoberto isso agora, como um insight. Onde eu escrevi pseudo-perenes, ia escrever perenes. Talvez seja isso. Até então, meu prazer em lixar essas colunas era grande mesmo sabendo que elas aparentavam uma perenidade. Estes dias, como que por mágica, ou uma euforia extemporânea, senti por instantes a esperança de imaginar que elas não são perenes. Que estas colunas estão prestes a desabar dentro dos próximos milhões de anos. Já me disseram que os astrônomos tem essas ironias. Coisas que estão a milhares de anos luz estão para eles, logo ali. Talvez eu tenha sentido esse logo ali e isso me deu um sorriso interno.

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