Mudança de carreira (+1 trecho do sabático)

plano-de-carreiraMuitas pessoas não se atrevem a parar com medo de nunca mais conseguirem voltar ao ritmo que seguem ou então se sentirem pra trás em relação aos demais colegas do trabalho. Já outras pessoas buscam justamente essa mudança de paradigma mas adiam constantemente o momento que farão essas mudanças. Adiam para a aposentadoria aquela vontade de aumentar sua dedicação ao hobby, seja cuidar de carpas, ou dar aulas de dança de salão, ou escrever um livro. Passam-se os anos, chega a aposentadoria e nem lembram mais dos seus sonhos.

Outras pessoas que se atrevem a realizar um período sabático querem somente uma parada, olhar fora da caixa, poder ter tempo de pensar na vida, curtir uma viagem, renovar energias. E após esse período voltam para seus empregos ou carreiras. Esse respiro é salutar e até estimulado por algumas empresas. Mas falaremos mais desse caso logo mais. Este capítulo tratará dos sabáticos que envolvem uma mudança de carreira.

Alguns jovens profissionais tem a percepção e a coragem de mudar de carreira logo nos primeiros anos, ainda antes dos 30. Sentem-se totalmente deslocados nas empresas que estão e percebem que aquela realidade é muito diferente do que imaginavam na época da faculdade. Vários desses jovens voltam para a faculdade, seja para cursar uma nova graduação ou algum mestrado que possa ser a ponte para uma carreira alternativa.

Tenho um amigo que vivenciou uma história muito engraçada logo após se formar em administração de empresas em uma grande universidade. Ele foi procurado por uma dessas multinacionais de auditoria e consultoria e passou por um ciclo de dinâmicas de grupo, entrevistas e reuniões. Foi tudo muito cansativo e dos mais de 100 candidatos iniciais, restavam ele e mais 3 candidatos, para duas vagas disponíveis. Após várias entrevistas, a última etapa consistia de uma última conversa com um sócio da empresa. Ao chegar à sala do executivo, este nem levantou a cabeça. Assim que meu amigo se sentou, o sócio da empresa tascou de cara, sem bom dia nem nada, a seguinte pergunta: “Quantas bolas de tênis você acha que cabem nesta sala?”. Meu amigo por meio segundo chegou a olhar ao redor e começou a fazer cálculos, até dar-se conta de que estava absolutamente exausto de tudo aquilo. Meu amigo é filho de italianos, então você pode imaginar o nível dos palavrões que ele começou a soltar naquele momento. A gritaria se seguiu enquanto se levantava, xingava o executivo, a secretária, as pessoas no corredor, as pessoas no elevador, o porteiro. Aquela situação foi muito estressante para um jovem de 20 e poucos anos, ainda que seja até bastante comum em várias entrevistas. O engraçado da situação é que fico imaginando esse meu amigo olhando pra parede, olhando pro executivo e finalmente começando a xingá-lo dizendo onde deveria enfiar aquelas bolas todas.

Nos primeiros dois anos ele acabou trabalhando como administrador em outras 2 empresas mas já havia percebido naquela fatídica entrevista que esse universo das empresas não era seu lugar. Ele não sabia ao certo o que o levou a fazer administração, mal lembrava dos sonhos de antes de começar a faculdade. Mas lembrava muito de sua mãe, que havia morrido de câncer quando ele ainda era uma criança. Sua mãe sempre esteve por perto em seus pensamentos e mais uma vez parecia surgir com uma oportunidade. Na mesma universidade que estudou acabavam de lançar um curso de especialização em administração hospitalar e aquilo parecia fazer agora muito mais sentido pra ele. Não só por lembrar-se de sua mãe, mas também por saber que poderia aliar sua formação com uma ideia, ainda vaga, de ajudar pessoas. A última vez que o vi, já faz muitos anos, ele era coordenador administrativo em um grande hospital. E a notícia mais recente que tive dele era que acabava de ser contratado para ser o diretor-chefe de um hospital em São Paulo.

Ele não precisou fazer um sabático para fazer essa mudança, mas passou, como muitos de nós, por um momento de reflexão, de crise, e de oportunidade. Sente-se hoje  feliz por suas escolhas e ri alto, como todo italiano faz, daquela fatídica tarde das bolinhas de tênis.

Existem executivos de grandes empresas que jamais se imaginariam em crise. Fizeram suas carreiras de sucesso em menos de 20 anos, crescendo nas empresas ou mudando de emprego, sempre de forma ascendente. Profissionais que estão ente os 40 e 50 anos e enfrentam hoje, calados e bastante preocupados, uma sensação de vazio. Alcançaram o status, compraram suas casas, tem dinheiro para carros seguros par suas famílias e viajam para outros países nas férias. Percebem que tudo ao seu redor está como planejaram: família estável e sucesso financeiro. Mas falta algo que não conseguem descrever. Como a idade e as responsabilidades já são bem diferentes da época que tinham 20 e poucos anos, nem cogitam mudar nada, pois isso seria suicídio profissional, segundo eles mesmos. Não conseguem imaginar-se começando do zero, sem o status, sem as comodidades do reconhecimento por onde passam hoje. Mas alguns se atrevem. E nos contam suas histórias.

Eu mesmo já mudei de carreira umas 5 ou 6 vezes: comecei como profissional de marketing (tendo estudado psicologia), virei produtor cultural, passei a ser consultor de ONGs, fui empreendedor de pontocom, gestor público… Quase todas essas mudanças ocorreram através de um sabático intermediário. Meu caso é quase patológico, então além de acharem engraçado, melhor nem considerar como exemplo. Mas vale a pena destacar ao menos uma situação comum a todas as minhas mudanças: uma sensação de fastio, de cansaço, de término de um ciclo. E é como se eu ouvisse um chamado interno me dizendo que aquilo não era o meu lugar. Que ali não estava meu futuro. Nas conversas com meus amigos, vários me disseram que também passaram por isso em vários momentos, mas que engoliam em seco e virava só uma fase de incômodo, que aquilo passava. Esses meus amigos estão muito bem profissionalmente, felizes, realizados. Souberam, melhor que eu e que muitos, administrar essas situações de cansaço e mal estar e conseguiram ultrapassar esses momentos. Quero com isso dizer que nem toda fase de incômodo significa um desejo de mudança ou de parada. As vezes é só isso mesmo: incômodo. Cabe a você julgar se o incômodo é uma constante, se isso te paralisa ou angustia. Para alguns isso se transforma em doença, para outros é uma fase passageira, para vários isso é uma oportunidade para uma pausa. E essa pausa, as vezes, é o que te leva a planejar uma mudança de rota.

Não há regra ou dica para uma mudança de rumo profissional. Nossas dicas são para concretizar uma parada, um sabático, um sair da caixa e da rotina. A mudança de carreira, se ocorrer, se precisar ocorrer, vai acontecer naturalmente no período sabático. O espaço de se ouvir é que fará as coisas fluírem para isso. Novos interesses, vontades, curiosidade, tudo isso será natural. Basta com darmos espaço pra isso.

Um cuidado a se tomar é um mal cálculo. Para os casos de mudança de carreira, não basta planejar-se financeiramente para o período sabático. É necessário também calcular o período que negócio ou iniciativa precisam para vingar. Um dos meus sabáticos foi quando decidi sair da iniciativa privada e partir para trabalhos com ONGs. Calculei que em um ano chegaria a um patamar satisfatório financeiro, sendo que os primeiros seis meses seriam totalmente sem receita e os seis meses seguintes seriam já com alguma receita, onde a diferença seria coberta por minhas economias. Além desse cálculo, também previa uma mudança de gastos. Saí da iniciativa privada ganhando bastante bem, tanto é que me sobrava recurso suficiente para financiar um sabático. O que eu receberia após um ano do sabático de mudança de carreira seria ainda bem menor do que recebi na minha fase trabalhando na iniciativa privada, mas isso estava previsto. Eu preferia receber menos mas ser mais feliz. Mas esse menos não poderia ser algo que não pagasse ao menos meus custos básicos.

E foi assim que consegui, em um pouco antes de um ano, migrar de uma área profissional para outra. Em menos de 3 anos já ganhava o equivalente ao que ganhava na iniciativa privada e hoje, como consultor, ganho mais do que se continuasse trabalhando em empresas. A vantagem, nítida, é que trabalho com o que gosto e me sinto feliz com o que faço.

Ainda hoje faço muito trabalho voluntário, porque gosto. Mas foi assim também que aprendi a trabalhar na nova área que decidi migrar. As primeiras consultorias que fiz para ONGs foram gratuitas, assim como as primeiras palestras. Foi assim que aprendi a fazer e também foi assim que tive a certeza que era nesse ambiente que queria trabalhar.

Sempre encontro com pessoas em minhas palestras e cursos que sentem uma vontade de mudar de carreira e ir trabalhar com o terceiro setor. Para todas, desde sempre, eu recomendo um sabático. Porque se nada der certo, você retoma sua carreira. E se tudo der certo, você precisa mesmo de um tempo para se habituar com o novo ambiente. Tem gente que quer migrar de área como quem muda de emprego. Quer sair da área de marketing de uma multinacional e virar captador de recursos em uma ONG, como se fosse a mesma coisa, como se fosse o mesmo salário. Esses são os primeiros que desistem, até porque nem conseguem esses empregos. Outros que optam por juntar umas economias para financiar os primeiros meses antes de conseguir alguma coisa, ficam tão aflitos de conseguir algo logo, que se frustram ou não aceitam experiências voluntárias o por valores simbólicos. Os mais persistentes conseguem essa mudança, mas mesmo alguns destes não agüentam o tranco e após alguns anos, voltam para onde vieram. Não se sentiram tão mais felizes assim, perceberam os mesmos ou novos problemas, viram que a questão estava com eles e não onde ou o que faziam. Vantagens disso tudo: ousaram. E isso é a grande aventura da vida, que sempre vale a pena.

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