Quando eu olho hoje para a ideia de “as melhores”, confesso que ela já me incomodou muito. Teve uma época em que essa expressão me soava como um veredito final, quase uma sentença. Como se, ao colocar algumas organizações no topo, estivéssemos automaticamente empurrando todas as outras para um lugar menor, menos relevante, quase invisível. Era uma leitura simplista, mas bastante comum.
Com o tempo — e com a vida — fui entendendo que não é bem assim. O conceito das melhores, quando bem construído, não é sobre exclusão, é sobre referência. Ele não serve para diminuir quem não está na lista, mas para iluminar caminhos possíveis.
E isso muda completamente o papel de uma premiação dentro de um ecossistema.
Talvez o melhor jeito de explicar isso não esteja no mundo das empresas, nem dos governos, nem das ONGs. Está em uma indústria que entende profundamente de narrativa, reconhecimento e inspiração: o Academy Awards. Desde sua criação, em 1929, pela Academy of Motion Picture Arts and Sciences, o Oscar nunca foi sobre declarar “os únicos que prestam”, mas sim sobre destacar, em um determinado ano, o que houve de melhor dentro de um universo muito maior.
Esse detalhe — “neste ano” — é o que dá vida ao modelo.
Ele transforma o prêmio em algo dinâmico, quase orgânico. Não é um pedestal eterno, mas uma fotografia de momento. E, justamente por isso, abre espaço para renovação, para surpresa e para a entrada de novos protagonistas ao longo do tempo.
Quem ganha o Oscar não encerra a conversa; ao contrário, começa outra. A própria história do prêmio é cheia de exemplos de artistas que passaram anos sendo indicados sem vencer, mas que, ainda assim, estavam presentes, reconhecidos, pertencendo àquele grupo. Isso cria uma lógica poderosa: a de que estar entre os melhores já é, em si, um sinal de valor e de trajetória consistente.
Talvez esteja aí uma das maiores forças desse tipo de reconhecimento. A noite não é apenas sobre quem leva a estatueta, mas sobre quem faz parte daquele espaço simbólico. Você pode não ganhar, mas está ali, próximo, visível, possível. E isso, para quem está construindo algo, tem um peso enorme.
No ecossistema social, quando falamos das melhores ONGs, das melhores iniciativas ou das melhores práticas, o princípio deveria ser exatamente esse. Não se trata de dizer “olha quem você nunca será”, mas sim “olha o que é possível fazer”. Quando essa linha é ultrapassada, a premiação perde seu sentido e vira apenas mais um mecanismo de distanciamento.
O valor está no movimento oposto. Está no fato de que quem não ganhou consegue olhar para quem ganhou e enxergar caminhos concretos. Não perfeitos, não mágicos, mas possíveis. Existe ali uma tradução prática do que funciona melhor, dadas certas condições, e isso orienta quem quer evoluir.
Assim como no cinema, onde produções pequenas podem, ao longo do tempo, chegar ao palco principal, o ecossistema social também precisa sustentar essa sensação de mobilidade real. Não é automático, nem fácil, mas precisa ser percebido como possível. Sem isso, qualquer lista de “melhores” vira apenas um retrato distante da realidade.
Quando essa possibilidade é verdadeira, algo interessante acontece: o prêmio deixa de ser apenas reconhecimento e passa a ser ferramenta de desenvolvimento. Ele organiza critérios, ilumina práticas, cria uma linguagem comum e ajuda a dar direção. Mais do que isso, ele desperta desejo — e ninguém melhora por obrigação, melhora porque quer alcançar algo que faz sentido.
Voltando à minha própria trajetória, o que me marcou lá atrás, quando eu via listas de “maiores e melhores”, não era o ranking em si. Era a percepção de que existia um padrão, ainda que imperfeito, que podia ser entendido, estudado e perseguido. Isso influenciou decisões, moldou escolhas e abriu caminhos ao longo dos anos.
Hoje, participando da criação e evolução de iniciativas de reconhecimento, a responsabilidade é maior. Porque entendo que não estamos apenas premiando, estamos sinalizando. Estamos dizendo, ainda que implicitamente, “é por aqui que vale a pena ir”. E esse tipo de sinalização precisa ser feito com muito cuidado.
As melhores não podem ser um clube fechado; precisam ser uma vitrine aberta.
Não podem ser um fim em si mesmas; precisam ser um meio para que mais gente avance. Não podem gerar frustração paralisante, mas sim uma inquietação produtiva, que mova pessoas e organizações na direção de fazer melhor.
O Oscar se mantém relevante há quase um século não porque acerta sempre, mas porque sustenta essa ideia de celebração coletiva de uma indústria inteira. Todos sabem que os resultados são discutíveis, e ainda assim todos querem estar lá. Esse “querer estar” é, talvez, o ativo mais valioso de qualquer premiação.
É exatamente isso que buscamos construir no ecossistema social.
Este ano, celebramos os dez anos do Prêmio Melhores ONGs, uma década dedicada a construir referências, ajustar critérios e dar visibilidade a quem faz bem feito. Ao longo desse período, o aprendizado foi contínuo, e o mais importante talvez tenha sido reforçar a ideia de que melhorar é um caminho aberto, não um privilégio restrito.
E, como todo ecossistema vivo, é natural que haja expansão.
Por isso, estamos inaugurando também o Impacta+, um prêmio voltado a negócios de impacto, que reconhece organizações capazes de unir propósito e resultado. Não se trata de uma ruptura, mas de um desdobramento natural dessa lógica de reconhecer e inspirar diferentes formas de gerar valor.
Se conseguirmos manter essa combinação — reconhecimento real com possibilidade concreta — o conceito das melhores deixa de ser um problema e passa a ser parte da solução. Porque, no fim, não se trata de desvalorizar quem não ganhou, mas de lembrar que o jogo continua e que, no próximo ciclo, novas histórias podem ocupar esse espaço.
E isso, quando é verdade, é o que torna qualquer noite de premiação realmente especial.

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