Sabático – o livro

323_22_descansoFinalizamos o livro sobre períodos sabáticos (realizei 6).  Coloquei alguns trechos aqui no site, procure pela categoria sabático clicando aqui.

Ninguém nega que adorará quando chegar o tempo da aposentadoria, pra não ter nada pra fazer ou mesmo pra fazer o que gosta. Também se diz que muitos tem até medo desse momento, tão habituados que estão com o trabalho diário, durante anos. Mas todos sabem que hoje em dia e cada vez mais no futuro, os tais aposentados terão muitos anos a mais do que seus ancestrais. Anos imensos, cheios de nada pra fazer. Alguns sentem calafrios com a idéia, outros vibram e aguardam a data.

Mas… e se pegássemos emprestado alguns desses tantos anos que viveremos aposentados pra aproveitar agora mesmo, já, neste exato momento? E se decidíssemos que são tantos anos futuros e numa condição física menos vantajosa que a atual, que preferimos curtir ao menos alguns meses de nada por fazer, ainda enquanto podemos aproveitar melhor fisicamente?

Eu confesso que não havia pensado nunca desta forma até que vi um vídeo do TED com Stefan Sagmeister. Eu fiquei muito feliz pois ele colocou em um simples desenho o que venho anos fazendo com certa regularidade. Aquilo fez e faz muito sentido pra mim. E foi sinal de que era hora de divulgar isso pra mais gente. Se ele fez isso no TED, eu e Jorge poderíamos fazer isso através de livros e palestras. Nós recomendamos fortemente que as pessoas se dediquem a fazer sabáticos. Eles são necessários, são fundamentais, graças a eles eu sou o que sou hoje. E você precisa fazer ao menos um nos próximos anos.

Nas primeiras vezes que fiz um sabático eu não dei esse nome. Em uma delas, eu simplesmente queria descansar, curtir minha filha recém nascida e mudar de rumo profissional. Eu tinha 28 anos e acredite ou não, estava exausto. O que depois se comprovou que era um stress mais por não estar no lugar que queria do que por exaustão de fato.  Mas perceba:  Exausto aos 28 anos? Não faz sentido.

Depois eu percebi que já tinha feito isso em outras épocas. A primeira foi logo após os 11 tenebrosos e obrigatórios anos do primeiro e segundo grau (hoje chamados de ensino básico e ensino médio). Enquanto todos os meus amigos estavam estudando em cursinho ou já haviam entrado numa faculdade, eu estava esperando minha ida pra Espanha pois iria fazer faculdade lá. Fiquei mais de 6 meses não fazendo nada. Nada! Não estudei muito, carregava os livros na mochila, pegava um ônibus e ia visitar parques, museus, o centro cultural….  Era um sabático, sem que eu soubesse. Foram seis meses me despedindo do Brasil, dos amigos e da rotina, descobrindo um jeito diferente de fazer as coisas. Eu, definitivamente fui me habituando com longos períodos sem fazer nada útil (ao menos útil nos padrões que a sociedade chama de útil). Fui sempre um bom aluno. Não tenho esses traumas escolares. Só percebo hoje que aprisionar crianças e adolescentes desde cedo a uma rotina escolar é um crime. Ou, olhando pelo lado utilitarista, é um preparo, um ensaio, para a vida que o adulto terá. Desta vez aprisionado em baias ou em salas nos escritórios das empresas.  E como podemos mudar isso? Mudando a gente. Mudando a forma de olharmos isso.

Rubem Alves tem um artigo chamado a Caixa de Brinquedos, que fala sobre as coisas úteis e as inúteis. Ambas essenciais na vida. É tanto pragmatismo, tanto “vença”, “corra”, “conquiste”, e como ficam as chamadas coisas inúteis? Lembro um dia, eu era diretor de uma fundação governamental, onde pedi pro motorista parar o carro no meio da serra do mar, para que eu descesse e apertasse aquelas florzinhas que explodem quando as apertamos. Minhas duas assistentes se entreolharam, deram uma risadinha e eu, meio frustrado por ninguém perceber como são geniais aqueles estalos de esparramar sementes, entrei no carro de novo…

Eu desde cedo percebi que eu precisaria ter momentos livres. É dificil aliar a seriedade de cargos importantes com a florizinha que esparrama sementes. Dizer que dá pra aliar ambas coisas é mentira. Não é a mesma naturalidade. As minhas assistentes e o motorista devem me achar até agora meio esquisito (e sou) mas eu sei também que sou um excelente profissional, e prefiro focar em ser isso por temporadas, para ser absolutamente livre em outras. Foi o que decidi de uns tempos pra cá.

Meus sabáticos me permitiram ser um melhor profissional. Foi só graças ao tempo livre que pude perceber quais as mudanças necessárias pra minha vida e o que era necessário para eu estudar, ler, assistir… Num de meus sabáticos eu voltei basicamente às aulas, assisti mais seminários naquele ano do que todos os outros anos somados. E ia com gosto, com vontade de aprender. As vezes eu vejo profissionais participando de palestras e congressos. Pouca vontade… preguiça, muitos dizem ao chefe que vão mas nem chegam a pegar o crachá. No fundo, ao eu afirmar as vantagens do sabático, estou também assumindo que na hora do trabalho, nada melhor do que estar focado nele. O que é esquisito é essa coisa meio termo… Trabalhamos pela metade do tempo, enrolando, vendo vídeos no youtube pra passar o tempo, esticamos aquela reunião, é muito tempo desperdiçado. Não seria melhor ser super produtivo no trabalho e depois, em temporadas, ser super produtivo na tarefa de não fazer nada?

Lembro também de uma vez que falei para uns alunos que havia feito um período sabático e vários não sabiam o que era. Isso precisa ser dito, ensinado nas escolas, discutido. Não sabermos o que é um sabático é quase como não saber o que é a liberdade, imaginar que as pessoas nascem parar trabalhar na vida adulta, até se aposentarem. E por isso enquanto crianças estão em escolas. Para chegar à vida adulta e trabalhar, até se aposentarem. A vida é mais que isso. Definitivamente.

As pessoas se assustam quando eu digo” nada”. É como se tivéssemos que ser úteis o tempo todo. Oras, fazer nada é ótimo. Muitas pessoas acham que sabático necessariamente tem que ter alguma viagem. Não precisa. Mas é bem bacana. Sabe o livro: Comer, Rezar, Amar? Dizem que é mais pra mulheres né? Pois leia, seja você homem ou mulher. Ou assista ao filme. Adorei ler e assistir. A Liz Gilbert realmente se dedicou a fazer um sabático e isso tem um enorme mérito nestes tempos. O único risco que pode ocorrer em fazer um sabático é acabar encontrando algo útil pra fazer também.  Vários dos meus dias de não fazer nada foram superprodutivos em ideias e acabei fazendo alguma coisa, ou fiquei horas procurando coisas na web, ou fui fazer nada num lugar qualquer e encontrei gente e fiquei falando um monte a respeito de um determinado tema que me interessava. Eu sou hoje mais inteligente, sereno, capaz …- e produtivo! – ao ter feito esses sabáticos.

(vou publicando outros trechos aos poucos antes de publicarmos o livro. quer ajudar-nos nisso? contribua aqui!)

Inscreva-se para receber conteúdos exclusivos

em primeira mão!