7 quatro da tarde

QUATRO DA TARDE

Dona Lucinda e Dona Mirtes já me aguardavam na sala de reuniões fazia 10 minutos, mas não aparentavam nenhum incômodo, pelo contrário, continuavam com aquele sorriso encantador que toda senhora de mais de sessenta anos tem quando está animada com alguma coisa. Parecem crianças de cabelo grisalho. São nosso mais divertido patrimônio.
Conheci Dona Lucinda já no primeiro dia de trabalho, ela tinha um cabelo mais brilhante e dourado do que hoje, mas já carregava uma energia difícil de descrever. Encontrei-a no salão, conversando com algumas jovens. Quando cheguei perto, junto com nossa fundadora, ouvi-a explicando como untar formas de bolo sem manteiga. As meninas olhavam interessadas e a fundadora me apresentou a Dona Lucinda naquela tarde de tantos anos atrás. Foi amor a primeira vista. O brilho nos olhos dela faria com que eu fizesse o que ela mandasse naquele instante. Ela começou a explicar que estava muito contente de saber que eu passaria a trabalhar na entidade e que poderia contar com ela pra tudo. Nossa fundadora me explicou que Dona Lucinda estava na entidade desde antes mesmo da fundação. Já havia dado aulas de crochê, já havia trabalhado na administração, já fez inclusive reuniões de captação com empresários amigos dela.
Nesta tarde, na presença de Dona Lucinda e Dona Mirtes, relembrei como aos poucos fui conquistando aquele potencial captador que via e vejo nos olhos de Dona Lucinda. Ela é aposentada, assim como o marido. Mas como ela mesma diz, ele só gosta de jogar dominó no SESC. Ela também gosta do SESC, mas reserva as terças e quintas para acompanhá-lo, quando junto com outras amigas conversam sobre a vida enquanto fazem hidroginástica e yoga. Mas as quartas e sextas são sagradas para ela, e é quando abandona seu marido no dominó e se dirige a nossa entidade. Depois da oficina com as meninas vai para sua mesa (na verdade nossa sala de reuniões) e despacha de lá suas anotaçõezinhas e reuniões que marca nesses dias.
Dona Mirtes é amiga de Dona Lucinda. São vizinhas e estão sempre juntas. Mas Dona Mirtes aparece só nessas ocasiões onde são necessárias várias cabeças pensantes, como elas mesmas dizem. Dona Mirtes também tem os olhos brilhando, mas percebe-se claramente quem é a líder ali. Dona Mirtes é a fiel escudeira. Dona Lucinda comanda operações com braço firme e coração aberto. Já é o terceiro jantar beneficente que elas organizam. Pela primeira vez estamos fazendo um jantar semestral. Os outros foram anuais e um enorme sucesso.
Estou ansioso por ouvir de Dona Lucinda suas surpresinhas. Ela sempre trás alguma boa novidade, ainda mais quando é o último dia antes de começarmos. Como as vejo sorrindo, sei de antemão que não teremos nenhum problema de última hora pra resolver. Carina entrou comigo na sala de reuniões, com seu bloquinho de anotações.
“Duzentos confirmados!” – diz ela, antes de dizer boa tarde. Olho pra Carina que sorri, confirmando o número. Como cada pessoa pagou 50 reais, temos 10 mil reais de receita. Um sucesso mesmo, já que os demais jantares anuais tiveram um público de 150 pessoas e não esperávamos para este mais de 100 participantes.
A reunião é deliciosamente comandada por Dona Lucinda. É o primeiro momento do dia onde não tenho que liderar a situação. Ela nos conta, entre fofoquinhas do bairro e novidades sobre a neta, que a empresa contratada para o Buffet já está no local desde hoje cedo e que os enfeites feitos pelos adolescentes já estão colocados em cada mesa. Realmente não há muito mais o que fazer a não ser passar em casa pra ficar bem bonito pro jantar. Mas ainda tenho uma última reunião antes da festa. Por isso me despeço das moças, pego minhas coisas e me dirijo ao Pedro Salinas.

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