No começo do ano me atrevi a começar aqui uma série de artigos sobre o que denomino ecossistema social. E pausei o projeto quando percebi que faltava o óbvio: explicar do que se trata esse termo. 

Pausa dramática.

Foram passando as semanas e as pesquisas e reflexões a respeito do tema me levaram a uma viagem profunda. Minha ideia agora é pegar na sua mão e avançarmos lentamente por uns lugares que eu não cogitava ir. 

Me dê sua mão.

Nos embrenharemos na história, bem lá atrás, quando os nômades deixavam de ser nômades. Em paralelo, passearemos pelas primeiras narrativas humanas, antes mesmo das plaquinhas dos sumérios, quando as coisas se contavam de boca a ouvido.

Está tudo lá. O ecossistema social que vivemos hoje não foge muito das primeiras tribos. Lá surgiram os primeiros erros. As religiões surgiram lá. Os hierarcas também. As propriedades. E portanto o que era o ecossistema natural, onde elefantes, pedras e rios pertenciam-se, surgiu a novidade. 

O homem e a mulher, provenientes dos macacos. Ou segundo outras narrativas, de Deus. Então surgiu o ecossistema social. A cultura, umas culturas, milhões de culturas.

É muito pra se falar, por isso não tenho a pretensão de explicar tudo em um artigo, menos ainda por aqui no Linkedin, lugar árido para esse tipo de conversa. Mas se você me acompanhar, verá as correlações entre esse passado onde tudo começou e nossos escritórios.

O desejo de segurança através de salários mensais e o que os primeiros muros das primeiras tribos tem a ver com isso.

Hoje, pra começar a saga, vamos pegar leve. Vamos falar de religião (hehehe). Mas fique tranquilo, vamos falar de duas origens possíveis do termo religião. A primeira, que gosto mais, é que a origem vem de religare. Uma iniciativa humana de se buscar uma reconexão com Deus, a natureza ou o passado. Dessas frentes surgem as buscas espirituais mais diversas, geralmente buscas individuais.

A outra acepção de religião, dizem que vem de relegere. Ou seja, voltar a ler. Reler. Reler o que dizem as escrituras. Toda religião tem seus textos sagrados e boa parte dos tempos ritualísticos estão dedicados a reler, estudar, rever, reconhecer, rememorar o que está escrito. 

Eu gosto menos desse termo porque esse tipo de religião surge após a cultura humana, ou seja, é o humano que escreve e o humano que lê. Alguns vão dizer que quem escreveu é Deus, mas nem você nem eu somos um desses alguns, certo?

Então relegere é uma releitura do humano, portanto o ecossistema humano criando um ecossistema social. Um humano lendo outro. Graças aos sumérios, que inventaram a escrita, ganhamos de brinde a leitura. 

E as religiões das leituras atuam coletivamente ou individualmente. Leia e saberás o que fazer. Leia e aprenda. Leiamos todos o que foi escrito porque isso é bom.

O religare é uma outra viagem. É um desejo humano de se conectar com outra coisa. Podemos interpretar que é uma conexão com Deus, e não entrarei por essa trilha hoje. Quero focar numa reconexão com a natureza, o ecossistema natural, Esse desejo intrínseco nosso de buscar uma montanha, uma praia, uma árvore e achar tudo isso lindo. 

A gente está se conectando com o ecossistema natural, mas percebendo que não pertencemos a ele, estamos fora, não somos o leão que come a zebra, tiramos fotos desde o jipe. Achamos lindo.

E temos um desejo gigante, inconsciente talvez, de pertencer ou voltar a pertencer a isso tudo, mas não queremos que o leão nos coma.

Foi no meu desejo de religar que me embrenhei esses anos todos, às vezes vinculando o profissional, às vezes só o pessoal, nas buscas por algo que fizesse sentido. Encontrei de tudo e sei que também você, em maior ou menor grau, tem ou teve, ou terá, essas curiosidades.

Não vou te convidar pra nenhuma seita, nem te vender nenhuma mentoria do alce sagrado.

Eu só vou te escrever frequentemente aqui porque isso me ajuda a finalizar um livro que estou escrevendo faz anos, sobre essa época onde “tudo começou”. Eu não vou falar do livro aqui, mas sim do que estudei e o que me parece útil para você.

O ecossistema social começou antes mesmo do advento da escrita. Os sumérios inventaram suas plaquinhas faz mais de 5 mil anos. Os humanos desenvolveram cultura antes da escrita, e depois do advento da agricultura. Estamos falando de 10 a 12 mil anos atrás.

Portanto entre a agricultura e a escrita o que existia era uma cultura se constituindo, formando os pilares do que somos hoje como civilização. Não tinha ainda a escrita para que os próximos leiam. Não havia relegere, porque não tinha nem o legere ainda. Mas já existia o desejo do religare, porque com a agricultura veio a desconexão com a natureza. Aquele lance do Adão e Eva que comentarei outro dia.

Então o ecossistema social, que substituiu o ecossistema natural que fazíamos parte, junto com os leões e as zebras e os rios e as montanhas, ele surgiu depois da agricultura e antes da escrita. A escrita só fortaleceu o ecossistema social. E daí surgiram as civilizações. E cá estamos.

Então hoje falei um pouco do religare e do relegere. No próximo artigo vou falar sobre Caim, aquele que matou o Abel. Você já sabia. Isso não é um spoiler.

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