Quisera eu ter sido o criador dessa frase forte do tĩtulo. Mas não sou. Já chegaremos nele nas próximas linhas. Antes, me acompanhe em uma pequena historinha singela, eu e minha filha, aqui em Barcelona, indo escutar Davi Kopenawa no Centro de Cultura Contemporânea de Barcelona (CCCB).
Mas antes ainda que eu te conte sobre o CCCB, tenho que ir mais longe, bem longe no tempo, mais de 500 anos atrás. E segura na minha mão, eu não estou perdido. Vou te contar sobre aquele tempo, sobre o CCCB, sobre o autor da frase do tĩtulo e, ufa, sobre o que vim aqui dizer.
Diz a lenda que os reis da Espanha, quando souberam que Colombo tinha encontrado terras novas, pediram que se organizasse uma recepção em frente ao seu palácio. (Hoje esse lugar se chama Plaza del Rey e vale a pena a visita). Colombo chegou com um monte de coisas, junto com seu pessoal. Frutas, plantas, pedras e, acredite: um indĩgena. Nu, morrendo de frio e de medo.
Segue a lenda, que os reis, em um ato de bondade e ignorância, exigiram que a turma do Colombo soltasse o indĩgena. E assim foi. E soltaram e o índio saiu correndo por aqueles prẽdios medievais e nunca mais apareceu. Ninguém mais achou.
Salto no tempo, para uma tarde numa sala cheia de gente interessada em ouvir Kopenawa. Eu já o conheço de outros carnavais, sou grande admirador dele e sofro cada vez que o escuto, pois ẽ um xamã yanomami que sabe que a sua missão é árdua, avisar os napo (homem branco), que o céu está caindo, que essa vida que vivemos é um absurdo desse jeito que fazemos. E sofro cada vez que o vejo, olhando assustado para as pessoas que o olham admirado. Não foi diferente aqui em Barcelona. E atẽ as perguntas da moderadora me pareciam desconectadas do que ele dizia, suplicando atẽ. Ela parecia achar só tudo muito bonito.
Ẽ como alguém te dizer que você levou um tiro e você dizendo que lindo aquele passarinho voando.
Não quero aqui resumir nem me atrevo a comentar a fala do Davi, mas sugiro que busque por aĩ o que ele tem dito, sobre seu livro e a incansável tour que faz pelo mundo, mesmo odiando o ar condicionado, o avião, a cama mole. Ele queria estar em sua tribo, mas tem uma missão, como xamã. Ẽ uma triste missão.
Ok, vamos começar as costuras das pequenas histórias. Quem falou a frase do tĩtulo deste artigo foi o querido Krenak em um vídeo curto e, como sempre, maravilhoso. Mas ele citava Nego Bispo, que escreveu um livro chamado A terra dá, a terra quer.
Krenak, que está numa fase bem apocalĩptica e divertida, consegue nos dizer, com humor, em outros vídeos, que já entramos pelo cano, e que poucos sairão dele. Que a terra deu, deu, deu. E que agora vai engolir. Ẽ da sua própria natureza. E é até bonito tudo isso, o apocalipse.
Acho muito interessante que gente dos quilombos como Nego Bispo consiga dialogar com muita sintonia com Krenak. Que Davi Kopenawa esteja, assim como muitos outros pelo mundo, fazendo cansativas turnês para que os homens e mulheres brancos olhem fascinados, façam perguntas poẽticas e recebam respostas duras, e ainda aplaudam no final. As pessoas da terra parece que gritam: Vocês não estão vendo o que estão fazendo? O que está acontecendo?
Neste ecossistema social que vivemos, tudo é correria.
Provavelmente perdi diversos leitores já nas primeiras linhas deste artigo, porque não falava sobre algo produtivo, comercializável. Alguma ferramenta, algo que possa ser replicado. E é provável que acabe de perder mais outros com este próprio parágrafo. Enfim.
Como civilização, não conseguimos ainda perceber a abundância. Nosso cotidiano está pautado pelas carências. Falta dinheiro pros nossos projetos, porque estamos fechados pelas próprias portas e muros criados. Eu venho do mundo da mobilização de recursos, a maioria de vocês sabe disso. E ainda que eu nunca tive problemas para realizar meus projetos, sou frustrado por não ter conseguido convencer a maioria dos meus alunos sobre como conseguir. Eu sempre consegui, não milhões de dólares, simplesmente porque nâo preciso de tanto dinheiro para fazer esse projetos.
Antes eu sofria quando via projetos bem superficiais conseguindo dinheiros que eu nem cogitava para os meus. E em dois ou 3 anos, o projeto acabava. O dinheiro? Sumiu pelo ralo. Financiou os salários de ativistas bem intencionados e alimentados. Eu falei sofria? Eu odiava isso. Passou.
Hoje em dia a palavra forte é impacto. Impacto para quem cara pálida? Já não basta o gigante impacto que fizemos neste ũltimos milênios? Olha ao redor! Olha o estrago! Não seria mais coerente irmos na maciota, devagar devagarinho? Porque se acelerar, explode.
Não sou ingênuo. Sei que há muita gente bem intencionada querendo melhorar o planeta. Mas eu concluĩ que esses estão perto dos piores. Porque entram na onda, com toda sua boa intenção, acreditando que estâo fazendo o bem. Mas estamos entrando pelo cano. Os piores sabem que estamos entrando pelo cano, mas não se importam. Os quase piores acham que há esperança nesse jeito de fazer as coisas.
Muitos projetos maravilhosos não alcançam sua continuidade porque seguem fechados em suas paredes institucionais. Conseguem altos dinheiros iniciais, mas acaba o apoio e acaba o projeto. Milhares de projetos eu vi nascer e morrer.
A culpa não é do sistema, da civilização, do capitalismo. O problema é o jeito de ver. Porque não se trata de tirar de algum lugar, e sim de fazer junto. Aquele índigena que foi tirado de sua terra para se perder por uma Barcelona medieval é uma das coisas mais tristes que me afligem quando estou em dias sombrios.
A terra segue dando. Mesmo quando entramos pelo cano.
Pra tentar finalizar com algum otimismo: fazer junto dá certo. Mas tem que ser um junto mesmo. Nâo a gente com os nossos. É a gente com o outro. E não é a gente com nossas ideias de juntos, chamando os outros pra compor. Pra ficar bonitinho.
Ẽ junto mesmo. Dá trabalho. É juntar um mundão. Olha sõ o tamanho do problema.

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