lém de ser um belo título para um artigo, quero mostrar como isso afeta o nosso ecossistema social.
Se você perdeu a primeira parte, sugiro ler o artigo anterior.
Vamos começar explicando coisas. As citações de Caim, Abel, Adão, Eva e até nosso amigo Noé não virão aqui neste contexto como algo que aconteceu, mas sim como uma narrativa que foi se replicando durante muitas gerações, ao ponto de irem parar em um documento bastante importante. Na verdade, em 3 deles. Esses personagens estão nas origens dos judeus, dos católicos e dos muçulmanos.
Mas repito, não quero dizer que Caim existiu, mas sim que essa mitologia toda tem uma origem, provavelmente essas histórias foram contadas de geração em geração, foram sendo adaptadas, modificadas, aglutinadas.
Não havia escrita, tudo era ainda tradição oral.
Assim como Noé representa os sobreviventes de algum fim de era glacial onde as histórias sobre isso foram gerando um Noé mítico, Caim e Abel são provavelmente os resquícios de histórias variadas que se transformaram em uma só.
Essas histórias poderiam representar um conflito entre dois herdeiros ou uma guerra entre duas tribos vizinhas. Está acompanhando até aqui? Ótimo. O que temos então?
Um símbolo chamado Caim, simbolicamente o primeiro agricultor da história, que matou o simbólico irmão, que era pastor nômade. E portanto temos o primeiro assassinato simbólico. Exagerei no uso do termo simbólico propósitalmente, que conste.
Ainda que a história na bíblia seja um pouco mais complexa e eu não pretendo aqui entrar nas minúcias, o fato é que temos fortes simbologias que entram no nosso cérebro sem tomarmos muita consciência:
Um irmão mata o outro irmão. E isso é, a não ser que você seja um psicopata, um horror. O primeiro horror contado nessa cosmogonia.
Pausa para explicar o que é cosmogonia, com a ajuda do meu co autor GePeTo: Cosmogonia refere-se a uma narrativa mítica ou um conjunto de doutrinas que explicam a origem do universo, do mundo e da humanidade, geralmente a partir de um estado inicial de caos ou desordem.
Ok. A bíblia é uma cosmogonia. Sigamos. Porque é o primeiro horror? Porque não chega nem perto da pequena coisa que foi a expulsão de Adão e Eva (que será tema do próximo artigo). O Caim matou o irmão. Repito: foi um assasinato. O agricultor matou o nômade, que estava por ali, basicamente passeando com as cabras pra lá e pra cá.
Começa a enxergar o título deste artigo? Estou dizendo que, por força da narrativa, se são dois irmãos, um morre (assassinado). Somos descendentes do outro. Tem umas minúcias na bĩblia que negam essa descendência. Mas é isso. Se um morre antes de gerar filhos, não temos como ser descendentes deste, somos do outro.
Parece que Eva tinha mais filhos e que os descendentes de Caim morreram todos no dilúvio. Mas olha que curioso. Esses detalhes não ”pegaram”. Estão lá, mas o que sabemos é do quarteto fantástico: Adão, Eva, Caim e Abel. E mataram o Abel. O Caim matou.
Então somos todos descendentes do assassino. E o que fazemos com essa informação? Sigamos nas metáforas das narrativas. Repito que isso não é ipsis literis, é só um exercício com as mitologias.
Outra pausa pra ter clareza sobre o que é mitologia. Chamemos o GePeTo: Mitologia é um conjunto de mitos (histórias explicativas), geralmente de cunho religioso ou cultural, que buscam explicar a origem do mundo, fenômenos naturais, o comportamento humano e outros aspectos da existência.
Podemos afirmar então, nos dias atuais, onde a agricultura é a característica dominante (restam poucos nômades por aqui, certo?), que venceu Caim, o agricultor. Morreu Abel, o pastor. Venceu um modo de ser, perdeu o outro.
Assim também, por outro ângulo, os biólogos dizem que os macacos bonobos são dóceis, há uma espécie de matriarcado e não há guerras. E que nós, descendentes dos chimpanzés, somos territoriais, violentos, patriarcais. Uma outra forma de dizer algo parecido.
Somos filhos dos ganhadores da guerra. Õbvio. Ainda que não gostemos da ideia.
Somos descendentes de quem somos. Isso não tem como mudar. Sou filho da dona Flora e do seu Marcelino. E eles de seus respectivos pais, até chegarmos ao Caim simbólico, aquele que matou.
Morreu aí a fraternidade? Faz tanto tempo que eliminamos a fraternidade? Logo no início de tudo já a tiramos do nosso radar?
Chegamos ao cerne do que venho estudando ultimamente, e que chamo de ecossistema social. Dentro desse ecossistema está o mistério. Como envolvemos a fraternidade se ela foi morta já na gênesis disso tudo? Conseguimos exercer a fraternidade tendo em nosso DNA (sigamos com o simbólico ok?) o assassino original?
Não entro na ideia de culpa cristã ou qualquer outra, nem me sinto culpado pelo passado, mas me afeta que talvez nossa corrida de ratos na gaiola seja na direção equivocada.
Lá atrás, a bifurcação possível era um assassinato do pastor ou um convivio fraternal.
Abel morreu. O que devemos fazer para o convívio fraternal? Sabendo que não dá pra voltar atrás. Somos originários disso, dessa cosmogonia, dessa mitologia, dessa narrativa.
O que podemos fazer agora? Porque me parece que a estrada que estamos é aquela que o assassino caminhou. Estamos nessa estrada, sem o convívio fraternal.
Tem como ressuscitar Abel? Eu voto que não. Já não deu certo com o Jesus. A simbologia do seu ressuscitar não mobiliza as pessoas suficientemente.
Tem como culpar os errados, porque nós somos os certos? Essa solução é ilusória. Porque cria dois mundos, os bons e os maus. Já estamos nessa aparente solução e olhe ao redor. Funciona?
Então o ecossistema social é uma leitura inspirada na própria natureza onde estão lá a zebra e o leão. E o rio e a árvore e o pássaro. A diferença é que o ecossistema social tem a civilização e a não fraternidade. Mas é o que temos.
O primeiro passo é percebermos o que temos. Está dentro de nós e da civilização tanto o mártir quanto o assassino. Somos filhos dos mesmos pais.
E então, para que serve esse tal ecossistema social? Vamos descobrir juntos. Por enquanto, precisamos perdoar Caim. Quem sabe assim ressuscitamos a fraternidade? Conseguimos perdoar o outro?

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