Quando eu comecei minha carreira profissional no Brasil, lá pelo começo dos anos 90, eu trabalhava em uma multinacional de consultoria. Um gigante que tinha como clientes as maiores empresas brasileiras.

Eu tinha 20 e poucos anos, tinham me colocado como gerente de Marketing da Accenture (na época ainda chamava Andersen Consulting) e eu era um fascinado, idealista e arrogante jovem executivo.

Fui convidado a participar do evento das Maiores e Melhores empresas da revista Exame e aquilo foi uma bomba de adrenalina. Eu já me sentia um cara incrĩvel por ter sido selecionado para trabalhar para uma empresa incrível. E agora via outros executivos reluzentes comendo salgadinhos e bebendo whisky em um evento cheio de empresas gigantes e poderosas e incríveis.

Minhas percepções sobre tudo isso mudaram muito nas décadas que passaram. Não me acho incrível, nem acho que as empresas que trabalhei e os executivos que conheci são poderosos e fantásticos.

São humanos, são gente, e ok.

Mas o que sim ficou pra mim por muito tempo foi a simples ideia de reconhecer que aquelas ali naquele dia eram as melhores empresas no Brasil, por critérios que nem sabia direito quais eram, e que fui estudar, anos depois.

Dos 20 aos 30 anos, aproximadamente, minha vida foi pautada por estar perto das melhores empresas e me envolver nisso, viver o melhor mundo das melhores empresas.

Dos 30 aos 40 mudou tudo. Eu mudei. Não vou entrar em detalhes aqui, mas muita coisa aconteceu pessoal e profissionalmente comigo. Eu não acreditava mais em empresas e fui então buscar outras coisas. Além de começar no mundo das ONGs tive uma experiência que era pra durar 1 ano e durou 5, trabalhando no governo do estado de são paulo.

Era a época do Mário Covas e quando tive oportunidade, criei um prêmio de gestão pública, focado nas melhores iniciativas entre as centenas de áreas do enorme governo do estado, com seus mais de 700 mil funcionários. Eu estava vivenciando, pelo outro lado do espelho, aquilo que vi na premiação das Melhores empresas da Exame.

A festa do governo, na Sala São Paulo, trabalhada com esmero e com reconhecimento, acontecia numa época para mim ainda cheia de crise da existência e dos exageros de trabalho. Veio uma depressão, ou burnout como se diz hoje, e fui cuidar de mim.

Dos 40 aos 50, pra resumir e arredondar a vida, meu foco foi todo em ONGs. Depois de participar do primeiro e do segundo setores, o terceiro setor virou minha casa. Mais cuidadoso com isso dos exageros, minhas consultorias e aulas, junto com minha vanguarda no home office, fez minha vida entrar em uma trilha em ritmo de rio lento. E é assim que descobri gostar.

Se você chegou até aqui, meus parabéns. Porque não falei do ecossistema social mas ao menos te mantive por perto. E vamos a isso. Afinal, o que o ecossistema social tem a ver com a minha vida? E o que dirá da sua?

Ainda dentro dos meus 40 a 50 eu criei um prêmio. Esse totalmente sob meu comando. Nem era da exame nem era do governo. Meu, meuzinho. Claro que tenho parceiros, apoiadores, patrocinadores, mas a ideia de que seja meu é que não mais perderei a chance de construir, a partir dele, algo que acredito desde meus 20 e poucos anos.

As melhores empresas, os melhores governos, as melhores ONGs, tudo tem em comum, gente. E as melhores gentes fazem coisas. Costumam fazer coisas melhores e vão melhorando-as.

É virtuoso o processo.

Dos meus 50 em diante (tenho 54 hoje), meu foco tem sido, além do Prêmio melhores ONGs no Brasil, que agora está também na Colômbia e no Mexico, cuidar conscientemente em ser uma pessoa melhor. Eu, euzinho.

Tenho ficado muito calado nas redes, porque meu tempo livre tem sido em cuidar de mim. Alguns fazem isso com dietas e ginástica. O que me dá inveja boa, Faço, mas insuficientemente. Minhas pausas me geram, além de dois livros sobre o tema, momentos de melhoria. Eu melhoro em mim o que fazia regularmente, para fazer melhoradamente.

Achei que isso viraria meu mote dos 50 aos 60, o de ajudar os outros a serem melhores pessoas. Mas não dou conta nem de mim, quem dirá dos outros! Então voltei ao casulo, apareço pouco, mudei até de país e nem tiro muita foto. Mas estou melhorando principalmente por duas coisas, escrevo e caminho.

Isso daria outro artigo, mas quero fechar este sobre os melhores no ecossistema social. Se você buscar ser uma pessoa melhor, tudo que você toca (emprego, família, vizinho) vem junto, por osmose. Não é auto ajuda, nem fé nem mistério. É o que sempre foi: uma empresa melhor está cheia de pessoas melhores. Um governo melhor está cheio de pessoas melhores. Assim é nas ONGs, assim é na padaria, no clube, na festa, na escola.

Ninguém precisa ganhar dos outros, basta funcionar.

Essa frase é da Suzana Herculano-Houzel. Bióloga, neurocientista da Universidade Vanderbilt (EUA) O que ela quer dizer com isso é que ser melhor não é uma competição e sim um esforço consigo mesmo. Nas instituições, por incrĩvel que pareça, também é assim.

O ecossistema social é feliz e infelizmente a somatória de todo mundo. Eu não consigo melhorar o ecossistema, mas consigo inspirar a partir da minha existência. Eu melhoro, eu ajudo outros a melhorarem, mas o mérito é de quem faz a melhora, não meu.

E se você se recusa a melhorar, estamos, como ecossistema, perdendo você.

Melhorar é não só bom pra você como essencial para nós todos.

E pra fechar o artigo conectando com o título: as melhores coisas na vida são gratuitas. Tirei a palavra coisas de propósito, pra fazer você chegar até aqui. Que bom que chegou.

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