Poucos sabem, mas fui um dos primeiros blogueiros brasileiros, lá no início dos anos 2000. Éramos tão poucos que fazíamos festas em SP e vinham quase todos. Escrevíamos um artigo e virava sucesso na chamada blogosfera. Aconteceu assim comigo, com um artigo que escrevi e que virou até tese de mestrado. Eu falava da Linkania e do Religare.

O que fez sucesso foi o termo linkania, ainda que era metade do artigo. Como já falei algo sobre Religare num outro artigo recente aqui no linkedin, vou hoje me concentrar em falar da linkania no ecossistema social.

Resumindo muito, linkania está para links e conexões, assim como cidadão está para cidadania.

Portanto a linkania é a cidadania desterritorializada. Antes da internet, a pessoa estava na cidade fazendo lá suas coisas, trabalhando, vivendo, enfim. Com a internet, a pessoa pode fazer home office e ir morar em Bali, trabalhando para o Nubank. E pode também mobilizar pessoas contra a guerra na Ucrânia, desde o seu sofá.

Confesso que eu era mais otimista com a linkania 25 anos atrás, mas ainda tenho um resquício de esperança na humanidade, nesse ecossistema social que tudo inclui. Na época do meu artigo do início dos 2000 havia a beleza da cooperação batendo à porta, com o Linux por exemplo, incomodando um pouco a Microsoft.

Não havia nada de facebook, instagram nem orkut. Estávamos entusiasmados com a abertura da internet, enquanto hoje estamos em bunkers/gaiolinhas onde achamos que estamos livres. Esta gaiola linkedin, por exemplo. Estamos brincando de livres aqui dentro. E o dia que não quiserem brincar mais, pra onde irão nossos textos, curtidas, nossa vida online? Enfim, não nos desesperemos.

Se a linkania é nossa ação no mundo, o ecossistema social é nosso lugar. A vida é o que acontece enquanto planejamos, dizia o John Lennon. E o peixe nem sabe o que é água. Ele só está lá. Entre essas várias frases lugar comum que escrevi agora, a provocação é a seguinte:

Enquanto acharmos que existe um nós e outros, é que não entendemos onde estamos.

Se eu brigo com quem pensa o contrário de mim e acho que eu tenho a verdade definitiva, é porque não entendi que estamos na mesma gaiolinha.

Na linkania escrita naquela época, havia uma ingênua crença de que estávamos conseguindo uma grande liberdade de voz. Deixávamos de ouvir o Cid Moreira no Jornal Nacional como a verdade broadcast e tínhamos a possibilidade de sermos todos publishers. Cada blog era um jornal nacional que tinha lá seu público, que também interagia. A linkania era mais legal que a cidadania porque tinha o link, a interação, a conexão.

E você vai dizer: ah, mas agora também interagimos, curtimos, comentamos… sim, Menelau. Mas fazemos isso dentro da gaiolinha do outro, usando as regras do outro, curtindo e esperando curtidas para que o outro ganhe dinheiro com isso, e você, na melhor das hipóteses, uns trocados também.

Mas não quero te deprimir. Vamos lá. O que é a linkania no atual ecossistema social que estamos? Basicamente é manter-se à deriva. Explico:

Depois da sensação de potência de sermos nossos publishers no início dos 2000 e muito rapidamente a indústria ter novamente nos encapsulado em suas caixinhas, eu segui buscando no google e nas wikipedias. E isso gera uma bela sensação de liberdade. Porque a tal verdade não é obviamente única, ainda que às vezes seja um bom consenso.

Só que agora temos a (in)grata surpresa da inteligência artificial nos dar “verdades” prontinhas e palatáveis na primeira linha de busca. Tem momentos que isso ajuda, é verdade. Mas se não prestarmos atenção, caímos de novo na única verdade, no exato, no nós temos razão e o outro está errado.

Como então podemos estar à deriva nisso? Primeiro, não acreditando que somos livres. Preste sempre atenção nisso. Não somos livres escrevendo um texto como este aqui neste linkedin. Eu tenho consciência disso. Tenha você também, por favor. Mas vamos mais além: Se a linkania queria se libertar da simbologia da cidade como espaço, precisamos agora nos libertar do chamado ciberespaço. Isso era antes um lugar legal, agora é um conjunto de latifúndios por onde navegamos.

Preste atenção hoje em quantos lugares virtuais você passará além das redes, do teu bankline, talvez um jornal. Imagine que existem milhões de sites por aí, mas navegamos por uma dezena ou duas de plataformas. Veja que o Instagram não deixa usarmos links (ou deixa só um). Porque se deixar, iremos para outras gaiolas, ou navegaremos ao léu, olha o perigo. Não é por falta de tecnologia que só liberam um link ou nenhum. É pra que continuemos lá todo o tempo scrollando até a morte.

E agora a nova inteligência artificial nos responde quando perguntamos, sem links, ou com quase nenhum. Para que fiquemos com essas respostas e assim estamos dentro desse latifúndio consumindo anúncios ou sendo consumido pelos anunciantes.

Enquanto escrevo este artigo, o Google acaba de criar uma aba, chamada Modo IA. está à esquerda do Tudo. Ou seja, IA vai nos passar a dizer o que é a verdade.

A preguiça vencendo a curiosidade.

Não vou aqui defender uma saída massiva das redes (que seria uma boa ideia, mas não tenho idade nem esperança para novos ativismos). Meu pedido é bem mais simples. Tome consciência. Isso já é um grande passo. Perceba que estamos navegando de gaiolinha em gaiolinha.

Na cidadania, vamos de prédios e lojas a escolas a clubes. Na linkania vamos de uol a insta a bankline a gpt. Desligar o celular é como pegar a estrada para um gramado com vacas pastando. Fazer isso às vezes é reconhecer que tudo isso em volta é o ecossistema social que vivemos, nós que criamos. Nem julgo se é bom ou ruim, mas é o que temos.

Fazer uma pausa para tomar consciência é um ativismo sutil.

Olhar pela janela entre uma tela e outra. Nosso ecossistema social tem muita informação, mas é uma abundância tóxica. Antes de ler mais coisas na telinha, descanse a vista 3 minutos. Imagine um pasto, uma montanha, uma floresta. Imagine uma vaca.

A vaca no campo segue pastando, levanta a cabeça e, enquanto te olha, mastiga capim sem pressa, como se fosse chiclete.

Linkania não é nem um pouco importante, como eu achei que fosse um dia. Achei que tinha criado um novo conceito, uma nova forma de entender o mundo. Besteira. O mundo é o mesmo desde que largamos o paraiso em busca de liberdade. E perdemos a liberdade.

Mas existe uma forma de trabalhar isso, individualmente, a liberdade evolutiva. Eu tentei transformar isso em produto tipo coach e me arrependi. Isso não é pra ser um produto, nem um movimento, nem uma religião nem nada.

Evoluir no ecossistema social tem a ver com vocễ melhorar. Mas não nos típicos parâmetros. Sigo no próximo artigo, e prometo que será menos cabeçudo. As ideias base sobre ecossistema social estão colocadas nestes primeiros artigos. Os prõximos são mais conversas sobre o cotidiano, nosso dia a dia.

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