Quando falamos em fortalecer organizações sociais, pouca coisa é tão negligenciada — e ao mesmo tempo tão poderosa — quanto um conselho consultivo bem estruturado. No Brasil, muitas entidades confundem esse órgão com o conselho fiscal, que é uma obrigação legal. No entanto, o conselho consultivo é uma decisão de gestão e um instrumento fundamental de escuta estratégica, relacionamento com o mundo externo e, especialmente, de mobilização de recursos.
O papel estratégico dos conselheiros influentes
A experiência mostra que conselhos consultivos funcionam melhor quando reúnem perfis diversos, incluindo: Pessoas com capacidade financeira e redes influentes; Figuras públicas e personalidades com visibilidade social; Especialistas, lideranças comunitárias, fundadores e voluntários engajados.
É questão de estratégia. Pessoas com influência econômica não apenas têm mais condições de doar pessoalmente, mas também de abrir portas, fazer introduções e persuadir potenciais apoiadores. Figuras públicas, por sua vez, ajudam a ampliar a visibilidade, reputação e engajamento social, que são ativos essenciais na captação de recursos hoje.
O que a pesquisa internacional diz
Nos Estados Unidos, o debate sobre conselheiros atuando como doadores não é apenas teórico — ele está no centro das melhores práticas de governança. Segundo um relatório de benchmarking da OpX360, cerca de 74% dos conselhos de organizações sem fins lucrativos têm participação de membros que doam pessoalmente, ainda que apenas cerca de 46% tenham 100% de participação garantida. O estudo aponta ainda que 68% das organizações possuem políticas formais que incentivam ou exigem contribuições dos membros do conselho.
Em muitas organizações, existe inclusive a política chamada “give or get”: cada conselheiro deve doar um valor anual ou captar esse valor junto à sua rede de contatos.
Outro trabalho amplamente citado por pesquisadores do setor, promovido por BoardSource, recomenda que as organizações definam políticas claras de contribuição e que o objetivo deveria ser alcançar 100% de participação dos membros do conselho. Esse envolvimento não é apenas financeiro: ele sinaliza compromisso com a missão e aumenta a credibilidade institucional junto a grandes doadores e fundações.
Esses números deixam claro que, internacionalmente, um conselho consultivo ativo que dá exemplo financeiramente não é uma exceção. É considerado parte integrante da boa governança e do sucesso na captação.
No Brasil, há exemplos concretos de conselhos consultivos que buscam esse tipo de conexão com o mundo externo (ainda que com déficit de conselheiros doadores). O Conselho Consultivo da UNICEF reúne executivos, líderes empresariais e personalidades públicas com o objetivo de fortalecer o diálogo com o setor privado e o ecossistema filantrópico, contribuindo para estratégias de parceria e mobilização de recursos essenciais para a promoção dos direitos de crianças e adolescentes.
Esse conselho inclui nomes como Deborah Vieitas (Santander Brasil), Fábio Barbosa (Natura &Co), Luciano Huck e outros líderes com forte inserção em empresas ou na mídia ilustrando como a diversidade de perfis pode criar um ambiente de influência real para apoiar causas sociais.
Outras organizações sociais no Brasil têm conselhos consultivos, cada um com sua dinâmica e foco, seja em advocacy, qualidade técnica ou mobilização de recursos. E nos ũltimos anos existe uma maior percepção dos gestores de que ao menos os conselheiros tem serviço para abrir portas. Mas ainda estamos a anos luz do formato “give or get”. Estamos ainda no “não doo e sigo aqui”
O que gestores satisfeitos costumam dizer
Gestores que já atuam com conselhos consultivos em suas organizações frequentemente enfatizam três benefícios diretos:
- Credibilidade externa reforçada — quando uma organização pode afirmar que conselheiros de renome fazem parte de seu núcleo estratégico, isso sinaliza confiança para financiadores e parceiros potenciais.
- Ampliação de redes — conselheiros influentes ajudam a acelerar conexões com grandes doadores, empresas e iniciativas de impacto social.
- Compromisso financeiro exemplar — conselheiros que doam ou se comprometem publicamente a captar recursos elevam o padrão de compromisso dentro e fora da organização.
Essas vantagens não são abstratas: são práticas que impactam diretamente nos resultados de captação e na sustentabilidade institucional.
Conclusão: um conselho consultivo é uma alavanca
Conselhos consultivos não existem apenas para reuniões protocolares. Quando bem estruturados, com diversidade de perfis e um compromisso claro de contribuição (financeira ou de mobilização), eles se tornam um dos principais motores de sustentabilidade institucional. Eles ajudam a ONG a sair do seu universo interno, conectar-se com o mundo externo e, sobretudo, transformar influência em ação concreta, incluindo o bolso.
Marcelo Estraviz – É sócio da Certificadora Social. Fundador e ex-presidente da ABCR. Criador do Selo Doar e do Prêmio Melhores ONGs. Lançou o dia de doar no Brasil e hoje é líder do dia de donar na Espanha. Treinou e mentorou milhares de pessoas no Brasil e América Latina. Seu foco atual é o ecossistema dos conselheiros e conselheiras

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