“consultorando”

De uns anos pra cá, fui criando meu método de consultoria. Foi ficando mais minimalista, menos esquematizado e quadrado, mais redondo e humanizado. Lembro sempre de uma história que me contaram sobre o Picasso, já no fim de sua vida. Ele resolveu que queria desenhar o touro essencial. Foi fazendo esboços freneticamente, por dias e dias. E todo touro desenhado ia invariavelmente pro lixo (imagina o que valeriam hoje). Cada novo desenho tinha menos cores, menos linhas e menos curvas. Ele foi chegando cada vez mais próximo, até que chegou a seu touro essencial, um desenho de duas únicas linhas. Incrível. Nem sei se essa história é real, mas impressiona. Minhas consultorias tem se desenvolvido assim. Lembro-me das primeiras faz já mais de 15 anos. Não as jogaria no lixo, como fez Picasso. Sei que foram boas, mantenho o contato com quase todos a quem “consultorei”. Mas, coitados, era tudo mais rococó. Gráficos, estruturas, planilhas, quadrados, caixinhas. Serviram sim, mas aos meus olhos de hoje, foi barroco demais. Fui limpando, tirando arestas, focando no essencial, administrando expectativas, mais que caixinhas. Atuando cada vez mais com as  motivações e menos com os gráficos. Tem muito mais conversa olho no olho e menos power-point. Um dia chegarei ao touro essencial, duas linhas, as necessárias.

O mesmo vem ocorrendo com minhas apresentações nas oficinas. Lembro até hoje do meu primeiro power-point (como o primeiro sutiã, a gente nunca esquece). Era uma palestra para um pessoal da Getúlio Vargas. Uma hora e eu tinha 45 slides cheios de texto. Isso com os anos foi diminuindo, diminuindo… Hoje consigo fazer uma oficina de 8 horas com 6 slides, se for o caso. Consigo até sem nenhum, claro. Essas muletas… que bom que não preciso mais delas.

E me divirto fazendo slides: fotos enormes e coloridas ocupando toda a tela, uma frase, uma palavra, as vezes só a foto. Adoro dar aula. Assim como adoro “consultorar”, nesse meu jeito conversacional, provocativo, informal. Tenho um indicador de qualidade infalível: em geral meus “clientes” viram amigos. Parece que estou fazendo propaganda de minhas consultorias… Oras, estou mesmo! Se você que me lê quer falar comigo sobre consultorias, entra em contato, uai. Ou repasse este post para quem você acha que vale a pena ler sobre isto. Uma das vantagens de me sentir maduro é isso, não preciso fingir que não é propaganda, não há necessidade de falsa humildade nem ingenuidade hipócrita.  Me sinto bom no que sou bom. Assim como já sei, e digo sem crise, no que não sou bom.

A maturidade é uma benção. Consigo por exemplo acertar com precisão quase cirúrgica um orçamento de consultoria, prevendo as horas necessárias e descrevendo as etapas e tarefas. Basta o essencial. A estética do essencial me parece tão mais honesta… Poderia enrolar, colocar horas desnecessárias, reuniões de diagnóstico infindáveis, apresentações embromation… Mas o que eu ganharia com isso? Uns cents a mais? Horas a menos de sono, isso sim. Os anos, a experiência e a maturidade me fazem saber hoje quanto vai custar, onde vai dar problema, quais os assuntos difíceis, o que não conseguiremos mudar… tudo nas primeiras horas. Não é ótimo? Eu acho ótimo.

Tenho hoje uma clareza das minhas capacidades, não preciso das muletas da enrolação. Durmo bem, com a sensação de tarefa realizada e mudança transformadora ocorrida de fato na instituição que me contrata. Nada melhor que isso.

Bom, tem algo melhor que isso sim: que um dia eu não precise mais fazer isso, que todas as mudanças tenham ocorrido ao nível do essencial, que o mundo esteja radicalmente melhor, ao ponto da mudança ser natural e os problemas, extintos. Uma utopia boa de sonhar.

A maturidade me permite também selecionar clientes. Porque tem gente que, convenhamos, não vai mudar. Enxerga o mundo dentro de caixas, dentro de hierarquias, fechado em seus conceitos envelhecidos.

Falo sempre que o objetivo máximo de uma entidade que lida com crianças com câncer é que o câncer tenha cura e não que se aumente o número de atendidos. Percebe a diferença? Gosto das ONGs que tem como slogan frases do tipo: juntos até o fim da pobreza. Porque é isso mesmo. Quando acabar, vamos cada um prum canto, vamos pra praia, vamos descansar. Tem gestor de entidade que pensa que deve crescer, como indústria de salsicha. Mais e mais crianças pobres. Quanto mais pobres, mais eficiência, mais demonstração de força. Oras, nada contra atender o máximo possível, desde que a missão seja nossa extinção como agentes sociais. Que um dia, utopicamente talvez, os problemas do mundo não existam mais, e possamos ir pra casa fazer outra coisa.

E enquanto isso não ocorre, aí sim, não há descanso. Nossas causas que nos movam e que tenhamos a maturidade de perceber a mudança constante, que saibamos dançar com ela. Assim a gente muda, e o mundo muda junto.

Consultorar pra mim é isso.

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