“Correndo muito?” “Não.”

(mais um trecho do novo livro sobre sabáticos)

Um dia um amigo que fazia tempo que eu não via foi direto pra pergunta padrão: “E aí? Correndo muito?”. Minha resposta foi curta e simples: “não”. Por dois segundos ele me olhou querendo saber se era uma piada ou algo grave. Ao ver minha cara séria, percebeu que eu estava falando a verdade e começamos um bom diálogo, que não existiria se eu respondesse o padrão: “sim, correndo muito, sem tempo pra nada, muito trabalho, etc.”. Ele me disse logo a seguir que estava também procurando encontrar mais tempo e eu brinquei que ele poderia começar refletindo sobre esses diálogos padrão que seguimos.
Eu não estou correndo muito. Eu não estou trabalhando muito. Eu estou trabalhando o necessário. Desvencilhei-me nesses anos de tudo aquilo que era supérfluo mas que na correria nem percebemos. Pra fazer isso, tive que sair da correria primeiro. Foi em um de meus primeiros sabáticos, quando decidi trabalhar em coisas que fizessem sentido pra mim, que decidi reduzir o número de reuniões, se possível a zero. Isso reduziu e muito minha sensação de que estava na correria. Um dos motivos da correria era que agendamos tanta reunião que não há tempo para trabalharmos, de fato. Outra decisão mais recente foi a de fazer paradas curtas, a cada hora. O que parece ser um desperdício de tempo é na verdade um retorno ao foco. Quando volto ao trabalho me concentro naquilo que preciso fazer ao invés de me distrair com várias coisas ao mesmo tempo.
Eu já disse antes e repito: Eu gosto de “fazer nada”. Mas isso só é pleno quando eu finalizo o que prometi a mim mesmo que iria fazer. Você pode se organizar da forma que quiser, eu tenho por hábito resolver 2 a 3 grandes coisas por dia, que eu defini como prioritárias. Esse hábito eu trouxe de um sabático que fiz faz uns 6 anos, o mais sofrido deles. Foi a vez que “precisei” fazer um sabático. Eu era diretor de uma fundação governamental, coordenava centenas de pessoas, era responsável por mais de 15 projetos que envolviam capacitação de milhares de servidores públicos, e tinha pouco mais de 30 anos. Olhando com a distância dos anos, percebi que o stress que passei (cheguei a tomar medicamento para depressão) não era só pela pressão e responsabilidade do cargo, mas também e principalmente porque esse emprego surgiu para mim sem que eu previsse. Todos os outros projetos que me envolvi tiveram sempre um enorme envolvimento meu. Quando obtive um cargo de gerente de marketing numa multinacional, quando eu quis ter uma empresa, quando decidi ser consultor, quando resolvi trabalhar em governos, tudo foi obtido porque eu ia atrás do meu desejo. Esse cargo que obtive na fundação foi uma surpresa. Surgiu inesperadamente, eu mal conhecia a fundação e o convite ocorreu nessas mudanças de gestão. Eu era um cara que estava lá disponível e pensaram no meu nome. Deixei um trabalho que envolvia outros 8 jovens como eu, onde trabalhávamos em grupo, basicamente sem hierarquias, e passei a comandar um grupo de mais de 300 funcionários, todos mais velhos que eu, cuja regra de respeito estava pautada pela hierarquia (que eu abomino). A pressão foi tão grande que eu basicamente capitulei. Fiz várias coisas nos mais de dois anos que passei por lá, mas não sem antes ter uma crise logo após um ano. Faltei vários dias ao trabalho, comecei a ir a um terapeuta, tomei remédios e em poucos meses estava melhor. Quando a segunda crise começou, um ano depois, pedi as contas. Era hora de um novo sabático e este seria duro, pois eu estava tratando da minha saúde.
Apesar de ter sido o mais doloroso, acho que foi o período sabático que mais me trouxe lições práticas. Entre elas, desacelerar, focar, fazer pausas, buscar sentido. Foi também o único período sabático que passei lambendo feridas. A terapia era basicamente minha única obrigação semanal e hoje, depois de ter recebido “alta” (o que é raro em terapia, o que muito me orgulho), posso dizer que eram essas horas semanais que me trouxeram a bússola para caminhar pela vida. É uma bússola diferente da que estamos habituados. A imagem que vem na minha cabeça é a de uma mandala. Sabe aqueles desenhos?

 

Se eu me coloco no centro da mandala, ao meu redor estão as coisas importantes da minha vida: minha filha, minha família, meus amigos, meus sonhos, meus trabalhos, meu dinheiro… Caminhar em direção a um deles precisa ser harmônico o suficiente para não desequilibrar a mandala. E a dedicação que você dá a um dos caminhos também alimenta o outro, como fractais. Isso me fez ter um equilíbrio maior em minha vida e mesmo que surjam situações de stress (porque sempre surgem), busco mecanismos internos para gerar equilíbrio, sem ter que cair em depressões, crises de pânico, ansiedades paralisantes…

Nesses anos eu fui descobrindo através de amigos como é grande o número de casos de todos os tipos. Tenho vários amigos que já passaram por crises de pânico. Outros que ou eles ou seus familiares próximos passam ou passaram por depressões leves ou profundas. Vários outros são diagnosticados como bipolares. Outros tem respostas mais físicas e menos psicológicas, somatizam de alguma forma e necessitam de dias parados através de atestados médicos. O curioso é que poucos, pouquíssimos na verdade, consideram que esses problemas são decorrentes de sua própria situação profissional. Alguns já me confidenciaram a sensação de sentir-se perdedores, incapazes, desajustados. Sofrem calados, mudam de empregos, buscam novas energias para continuar “vencendo”.
Também é grande o número de amigos que tem uma vida profissional de sucesso ao custo de uma vida íntima absolutamente destruída. Quase não ficam em casa, mal conhecem os filhos, tornam-se violentos, bebem muito, ficam em silêncio assistindo a TV… são várias as formas que nós encontramos para fazer tudo errado. Quando bastaria uma forma certa para equilibrar-nos.
Mas alega-se falta de tempo pra pensarmos nisso. A pressão é muito grande, a concorrência não para, no escritório alguém pode nos puxar o tapete, em casa não há sossego. Temos todas as desculpas para não fazermos a parada necessária. Nem 5 minutos.
Curiosamente os momentos mais felizes de nossas vidas nunca estão associados ao trabalho, você percebe? Nossas lembranças sempre são pelo filho que nasceu, ou nossa festa de casamento, ou aquela viagem com nossos amigos, ou o período da escola. Em nossos momentos mais felizes não estávamos trabalhando. E ainda assim, continuamos trabalhando como camelos.
Essa equação não fecha. Só lembramos disso quando algum parente e conhecido morre. Você percebe que nos velórios e enterros é quando damos valor à vida? Acha coerente pensarmos na vida só em situações de morte? Alguma coisa está errada. E você pode reverter isso.
Tem gente que alega que trabalhar não é mesmo pra ser prazeroso. Pois é com o dinheiro obtido que teremos nossas alegrias: comprar um carro, comprar uma casa, comprar coisas bonitas para nossos filhos. Eu não defendo que devemos parar de trabalhar para ter menos dinheiro. Não sou contra o dinheiro. Só acho que se não pararmos pra definirmos o que queremos, entraremos numa ciranda sem fim. E descobriremos tardiamente que o tempo para a felicidade já passou. Podemos ser felizes hoje, inclusive trabalhando.
Com todo mundo que conversei e que fez algum sabático há um elemento em comum: eles simplificaram suas vidas, muito. Alguns optaram por uma vida mais simples, mais barata e mais tranqüila. Outros voltaram ao mundo empresarial, galgaram postos e são mais ricos, mas da mesma forma simplificaram seus objetivos, suas metas, seus anseios. Em todos os casos, a simplicidade garante a eles uma vida mais sadia, mais equilibrada, mais feliz.
Meus sabáticos sempre estiveram associados a mudanças de carreira. Quando eu decidia parar de trabalhar, já tinha em mente pra onde iria depois do sabático, mas precisava de tempo para digerir essa mudança, conhecer esse novo segmento, aprender sem pressa e sem a pressão de precisar de dinheiro para pagar as contas do mês. Em todos os sabáticos que fiz havia dinheiro em caixa para não me preocupar por 9 a 12 meses. Com as contas garantidas, me dava ao luxo de não fazer nada, mas com um olhar no que queria fazer, pesquisando na internet, visitando um lugar que tinha a ver com minha nova área, conversando com pessoas desse segmento, tudo sem pressão, sem querer vender ou comprar algo. Eram simples conversas.
Este sabático atual eu estou usando pra escrever este livro. E completamente diferente dos demais. Não estou buscando conversar com outras pessoas de um novo segmento, mas estou conversando com pessoas que fizeram sabáticos. Continuam sendo agradáveis conversas. Esse é um dos prazeres que descobri na minha vida, eu gosto de conversar, de escutar, de ouvir histórias. Quando estamos trabalhando não temos tempo pra ouvir histórias. É como se elas fossem perda de tempo. Não temos paciência pra pessoas que falam demais, nem queremos ouvir sobre sua vida. Já nos nossos tempos livres adoramos ouvir histórias.
Uma vez eu fui a um congresso em Brasilia, quando estava decidindo trabalhar em governos. Não era exatamente um sabático, foram menos de 2 meses de férias que tirei logo que deixei uma ponto.com em 2001. Também estava recém separado e queria viajar um pouco. O congresso estava uma chatice. Como eu havia pago do meu próprio bolso a passagem e hospedagem, não pensei duas vezes e comprei um bilhete de ônibus para Chapada dos Veadeiros. Chegando lá contratei um guia com carro, que me levou pras principais cachoeiras da região. Fiz questão de entrar em todas, pra que a água purificasse meu novo caminho (e porque era uma delícia!). Um dos lugares que o guia me levou era a casa de um senhor de quase 80 anos, que havia sido mineiro na região, quando ainda havia a busca por pedras preciosas e ouro. O guia me disse que o velho era contador de causos e que enquanto vai contando as histórias, vamos provando de suas pingas. Com o passar do tempo é tanta pinga que provamos que acabamos comprando uma ou duas. Adorei a ideia e lá fomos para a casa do caboclo. Perguntei a ele se havia nascido por ali e como era a vida quando era jovem. Pois ele acabou me contando coisas de antes mesmo de ser mineiro, de quando era boiadeiro e traziam até bem perto de São Paulo os bois em viagens que duravam meses. Bebemos pingas de vários sabores até anoitecer. Por mim eu ficava mais (nem tínhamos chegado ainda às aventuras dele quando mineiro), mas meu guia queria voltar pra casa dele. Eu tenho uma bela recordação desse dia. Eu tinha tempo, não precisava ir para nenhum outro lugar. Se eu estivesse a trabalho ou mesmo como aqueles turistas com pressa, não conheceria a ótima história do caboclo. Eu me dei de presente esse tempo com ele. E voltei pra minha casa cheio de energia. Sem pressa.

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