No ar: doar

no-ar-capa11É claro que você vê isso na timeline de seu facebook. Pedidos de apoio para esta ou aquela causa, misturados com algumas frases bonitinhas de auto-ajuda e as típicas fotos dos filhos dos amigos. Então poderíamos dizer que nada mudou não é mesmo? Só que mudou sim. E sutilmente segue mudando. Esse infinito compartilhamento de coisas boas e ruins, de curtidas e comentários. Esse voyeurismo agora não só pela desgraça alheia mas também pela causa do outro, pela briga por mais ciclovias, por mais educação nos estádios, ou até simplesmente pela redução de algo ou pelo aumento de outro algo. “Soy contra” misturado a um “todos juntos por alguma coisa”.

Então sabe o que mudou? Mudou, um pouquinho ao menos, essa coisa de esperarmos. Agora passa a ser cool fazermos algo, mesmo que pequeno, mesmo que discreto, mesmo que só com os amigos. Principalmente e saborosamente só com os amigos. Estamos nos doando. O rapazinho lá no fundo da sala acaba de dar sua risadinha sarcástica. Vamos então dar mais pano pra manga pro rapazinho: estamos nos DANDO.

Durante quase 15 anos de minha carreira eu me dediquei a ensinar e ajudar ONGs a conseguirem aliados, dinheiro, fortalecimento institucional. Os próximos anos eu decidi fazer uma coisa parecida, só que do outro lado do balcão. Estou me dedicando a fazer as pessoas doarem. Não está difícil, porque como disse, as pessoas já estão se dando pras coisas, sutilmente. Elas estão se entregando a pequenas atividades, pequenos gestos, pequenas e frutíferas relações.

Mas para que minhas ações possam ser avaliadas (eu sempre coloco metas nas minhas atividades, vício de origem), eu precisaria definir parâmetros, eu precisaria medir o quanto de fato eu e outros poderíamos aumentar o nivel de doação de pessoas. Eu precisaria também definir um espaço geográfico, um período de tempo, um conjunto de apoiadores… enfim, eu precisaria transformar um desejo subjetivo em uma ação objetiva e mensurável.

Aí surgiu uma oportunidade, fazer uma palestra de encerramento no maior evento da america latina sobre mobilização de recursos. Quase 600 pessoas dedicadas a captar recursos, envolvidas com causas das mais diversas, portanto molas propulsoras para qualquer plano que envolvesse uma ação de engajamento coletivo neste país. Eu já havia escrito sobre mudanças de cultura de doação e o desafio agora, o tema que me pediram pra falar, era algo potente e genérico: falar do futuro da captação. Tão geral que soaria bobo se eu me descuidasse.

Meus 4 slides serviram de bússola para o que eu diria ao final. Pois eu iria propor que todos os mais de 500 ativistas de causas se comprometessem, cada um com suas causas, a ampliar as doações em suas ONGs, em valores e em quantidade de doadores. Para facilitar suas vidas, falei de tecnologia, da possibilidade que  já temos hoje de captar pelo celular. Perguntei se alguem já tinha alguma plataforma e surgiu uma ONG de Sergipe. Então lá mesmo pedi que quem quisesse, doasse para a ONG de Sergipe. Repeti o número 4 vezes, como se deve fazer, facilitando para o doador, como a Hebe fazia no Teleton (aliás pedi e deram uma salva de palmas para a saudosa Hebe). Falei que daqui a um ano faríamos uma doação em massa para uma ONG selecionada. Todos ao mesmo tempo. Falei que os ativistas e captadores são hoje e serão cada vez mais, triatletas. Focarão em pedir doações, transformarão voluntários em fundraisers e farão a ativação de ativistas. Tudo ao mesmo tempo.

O clima estava bacana naquele auditório. As pessoas animadas, excelente oportunidade para o fim de um evento positivo. Ótima oportunidade para um desafio. Perguntei a eles se sabiam quanto o brasileiro doa por ano. 5 bilhões. Quanto dá em média para cada doador. 300 reais por ano. Então perguntei quanto achavam que seria possivel fazer em 5 anos. Muitas mãos levantaram quando sugerimos que se dobrasse esse número. Quando perguntei se poderíamos fechar com essa ideia, mais mãos levantaram, mas ainda somente perto da metade. Quando disse que a princípio não precisariam fazer nada muito além de fazer aumentar o número de doações e doadores em suas organizações. E que com isso contribuiriam coletivamente para um resultado para o país. Assim que falei isso e pedi que levantasse a mão quem se comprometeria a que em 5 anos tivéssemos 10 bilhões em doações de pessoas físicas, dobrando portanto os números atuais, nem eu acreditei. Todos levantaram as mãos (ou quase, tinha aquele sujeito lá no fundo que ainda ria do doar-se) e aplaudiam ao mesmo tempo. Eu achei emocionante.

Então é isso. Daqui 5 anos o Brasil dobrará o valor de doações de indivíduos e isso chegará a 10 bilhões. Pois há um compromisso. Cada um fazendo um pouquinho, pequenos gestos. Simples? Simples.

PS: Obrigado ao pessoal da ABCR que me convidou a participar do Festival Latino Americano de Captadores de Recursos (FLAC) em Salvador. E obrigado principalmente aos mais de 500 seres que, como eu, acreditam que é possivel um país de doadores, ativistas e engajados.

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