Sobre conselhos consultivos em ONGs

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Separei aqui outro trecho, do meu último livro sobre Captação de recursos. É o artigo que mais recebe buscas via google. Falo sobre conselhos consultivos, uma ferramenta muito pouco utilizada nas ONGs brasileiras e que tem em si, além de um forte apelo arrecadador, uma grande sintonia com o mundo externo à entidade. É quando se fala mais de causas e menos de organizações. Vamos a ele:

##Conselhos Consultivos

Uma coisa muito mal aproveitada aqui no Brasil é o conselho consultivo. Mais uma herança maldita, desta vez, da legislação brasileira, que obriga entidades a criarem seus conselhos fiscais. Quando pergunto como está composto o conselho consultivo de uma entidade, as pessoas começam a explicar-me sobre o conselho fiscal. Um conselho fiscal no estatuto gera nomes pra inglês ver, uma espécie de obrigatoriedade sem utilidade. Eu explico que se a lei obriga, pois cumpra-se. Mas façamos mais.

O que devemos montar o quanto antes é um conselho consultivo, que serve justamente para isso, para consultarmos. Não é para abusar nas consultas. Devemos convocá-los uma vez, no máximo duas vezes por ano. E essa reunião deve ser tratada com cuidado, pompa e circunstância. Isso é bom para os conselheiros sentirem-se importantes (o que de fato são) e porque agrega um componente fundamental para as organizações: a escuta da sociedade, do mundo exterior.

Estamos muito habituados a ficar fechados em nossos muros institucionais e os conselheiros nos trazem a realidade do mundo lá fora, além de oxigênio quando estamos muito viciados em um mesmo modelo.

Algumas entidades criaram conselhos científicos. Acho excelente e apóio. Mas não é a mesma coisa. Um conselho científico é fundamental para garantir qualidade técnica para determinadas causas. Isso dá reconhecimento para as entidades no momento da captação, mas não basta. Cabe perfeitamente termos um conselho científico e também um conselho consultivo. Cada um com sua função.

É importante destacar que um conselho consultivo não serve só para a captação de recursos. Os gestores de uma entidade podem usá-lo muito bem, mas destacarei aqui somente as funções que tem a ver com a captação.

A montagem de um conselho é um trabalho artesanal. Não há necessidade de ser montado de uma só vez. Reforço que somente o conselho fiscal é uma obrigação jurídica. O conselho consultivo (assim como o científico) são decisões da gestão e não obrigatórias. Sendo assim, podemos criar uma política de atribuições dos conselheiros e um modelo de gestão para o conselho consultivo. Tudo isso deve ocorrer naturalmente, de acordo com o crescimento da entidade e a consciência dos gestores em saber usar bem seus conselheiros.

Eu sou conselheiro de algumas ONGs e confesso que me sinto pouco usado por elas. Poderia ser mais útil, se me demandassem. Com uma delas (The Hub) eu tenho construído junto com o gestor uma política de desenvolvimento do conselho consultivo. Tem sido um trabalho muito prazeroso e que com certeza gerará subsídios para que eu possa aplicá-los em outras instituições.

Mas como montar um conselho? Eu tenho uma fórmula. Não é minha. Li em algum texto americano e perdi a fonte, infelizmente. Uso essa fórmula nas minhas aulas e elas têm gerado sucesso, além de algumas gargalhadas. Explico. Eu uso a mesma equação da sustentabilidade das fontes: três terços de tipos de conselheiros. Um primeiro grupo é o dos ricos. É importante ter gente rica em nossos conselhos porque eles tem 2 grandes qualidades. A primeira é que eles são ricos e a segunda é que tem um monte de amigos ricos. Essa é a hora da gargalhada em minhas aulas. O segundo grupo deve ser constituído por gente famosa. Gente que aparece na TV ou na revista Caras. Artistas prioritariamente. Evite os políticos porque isso pode gerar conflitos de interesse. Nós queremos arrecadar de gente de todos os partidos e não somente de uma coloração política. Tenha políticos somente se consegue compor com uns três ou quatro de partidos diferentes e opostos. E isso não é fácil. Mais fácil é encontrar artistas que de uma forma ou de outra tem algo a ver com sua causa. Vá atrás deles e saiba que eles prontamente te atenderão. O terceiro grupo de pessoas é o tipo mais comum: nós. (outro momento de riso em minhas oficinas). Nós não somos ricos nem famosos, mas trabalhamos por uma causa. Inclua nesse grupo os fundadores, um ou outro acadêmico dedicado ao tema (se você não tem conselho científico), aquela voluntária da alta sociedade que organiza muitos eventos para a ONG e aquele líder comunitário do bairro da entidade.

Um conselho consultivo deve ter de 6 a 20 pessoas. Mas esse número é a critério da entidade. Eu fiz consultorias para entidades que tinham 80 conselheiros. Isso já é improdutivo. Como era uma entidade antiga, eles iam adicionando conselheiros sem tirar alguns. Outras entidades tinham três conselheiros. Isso não dá nem um jogo de buraco em duplas. Precisavam mais gente, para ter ao menos dois ricos, dois famosos e dois normais. São os seis iniciais.

Não há problema em tirar um conselheiro que você vê que não está sendo útil, desde que isso seja combinado previamente no início da gestão de um conselheiro. Eu recomendo que eles tenham mandatos de 3 anos. Não todos ao mesmo tempo, pois dá trabalho mudar todos os conselheiros de uma vez. O ideal é ir repondo conselheiros aos poucos. Não existe um número fixo. Você pode ter um conselho composto por 10 pessoas no ano passado e 12 este ano. E 8 no ano que vem. Como não é algo que consta necessariamente do estatuto, você define o formato. O importante é criar uma boa sopa com os ingredientes necessários e ir temperando.

As reuniões de conselho devem ser minuciosamente estudadas pelo responsável por elas. Você deve criar uma reunião que permita uma interação entre os membros, que gere um ambiente amigável e virtuoso. O presidente do conselho e o gestor principal da entidade devem abrir a reunião apresentando rapidamente os membros novos aos membros antigos. E devem fazer isso informalmente, criando um clima de camaradagem. A seguir apresentam a pauta e o horário de término de reunião. Não deve durar mais que 2 horas, no máximo 3. Os conselheiros são todos voluntários e por isso não devemos cansá-los. A seguir vêm as apresentações. Convoque alguém de sua entidade para anotar todas as dicas e sugestões dos conselheiros. Para isso serve a reunião.
Nas reuniões onde o tema é o plano de captação, o captador apresenta em poucos tópicos a estratégia. Ele foi precedido pelo gestor que apresentou as atividades do ano que vem. O captador apresentará a seguir as ações necessárias para a captação de recursos que serão necessárias para a realização das atividades da entidade.
O enfoque da reunião é fortemente captador. O objetivo é conseguir que alguns dos próprios conselheiros já se comprometam ali mesmo a doar algum valor. Quando auxilio entidades nessas reuniões, costumo conversar dias antes com algum conselheiro que em geral se compromete a ajudar. E peço a ele que declare seu apoio na frente dos conselheiros na reunião. É uma forma de estimular os demais a mexerem no bolso.
Já participei de reuniões onde os conselheiros se comprometeram com mais da metade da meta de captação. Porque além dos próprios conselheiros, estes têm amigos. O objetivo é sair da reunião com um real comprometimento dos conselheiros em conseguir os recursos e não somente aquela coisa do tipo: “Ah, você pode falar lá com a empresa xis”. Quando disserem isso, você deve rapidamente dizer: “Você me ajuda a conseguirmos 50 mil reais com a empresa xis?” Ou ele se esquiva ou se compromete ali mesmo, na frente dos outros.

Aliás, esse é um dos grandes baratos das reuniões de conselho. Quando você tem um grupo bem equilibrado com os três terços, os ricos, pra fazer bonito, querem mostrar aos artistas que tem dinheiro e doam ali mesmo. Os artistas, por sua vez, com sua capacidade de mobilização, comprometem-se a conseguir mais dinheiro fazendo um show ou evento. Os ricos, retrucando, dizem que vão conseguir mais dinheiro com amigos. Os normais (aqueles nem artistas nem ricos) se comprometem a organizar novos eventos arrecadadores. Eu adoro reuniões de conselho. É uma arte que ainda não assimilei completamente, quero aprender muito com isso. Espero ver florescerem mais conselhos consultivos para vermos juntos essa competição por quem ajuda mais.

Ideia central:
Os conselhos consultivos são ferramentas quase inexistentes no Brasil e altamente captadoras. Junte em uma sala um grupo de ricos, de artistas e de ativistas e veja os resultados.

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