O Brasil não sofre por falta de organizações sociais. Sofre por falta de associativismo real.
Nos últimos anos, vimos um crescimento consistente de ONGs, coletivos e associações. Há mais gente fazendo, mais projetos acontecendo, mais recursos circulando. À primeira vista, parece um ecossistema vibrante.
Mas, olhando de perto, o que aparece é outra coisa. Organizações operando como ilhas, com pouca cooperação, baixa coordenação e quase nenhuma estratégia coletiva. Estamos, ao mesmo tempo, superorganizados e subarticulados.
E isso tem um custo alto.
Impacto limitado, esforço duplicado e uma incapacidade recorrente de influenciar o território de forma consistente.
Associativismo não é criar uma entidade que representa um grupo. Não é ter um CNPJ coletivo. Não é organizar encontros periódicos. Associativismo, de verdade, é coordenação de ação, construção de agenda comum e capacidade de gerar escala a partir da cooperação.
A provocação é simples, mas incômoda: a maioria das associações no Brasil não associa. Apenas existe.
Quando olhamos para fora, fica mais claro o que está faltando. A Mondragon Corporation, no País Basco, não é apenas um conjunto de cooperativas. É um sistema em que produção, educação e financiamento estão conectados. As organizações dependem umas das outras.
O segredo não está na forma jurídica. Está na interdependência.
Em Portugal, a CASES – Cooperativa António Sérgio para a Economia Social cumpre um papel raro por aqui: organizar o setor. Formar, conectar, estruturar. Associativismo forte não nasce espontaneamente. Ele é construído.
No Brasil, temos bons exemplos, mas ainda são ilhas. A ABCR – Associação Brasileira de Captadores de Recursos conseguiu estruturar um campo profissional inteiro, criando identidade e prática compartilhada. A CUFA – Central Única das Favelas mostra o poder de uma rede com presença territorial e identidade clara.
Iniciativas como o Pacto Alegre indicam outro caminho possível: quando atores locais se organizam em torno de uma agenda comum, o território começa a responder.
Mas o padrão ainda é outro. Criamos associações que não colaboram, redes que não executam e encontros que não geram ação.
Confundimos convivência com cooperação.
Falamos muito de grandes agendas e transformações nacionais, mas esquecemos onde tudo realmente acontece. É no município que as relações existem, que a confiança se constrói e que os serviços são entregues.
Sem organização local, não existe ecossistema. Existe narrativa.
Talvez esteja na hora de ajustar a pergunta. Em vez de criar mais organizações, precisamos fazer as existentes trabalharem melhor juntas. Criar redes que executam, gerar interdependência real e transformar proximidade em cooperação.
Talvez o próximo salto do setor social brasileiro não esteja em mais inovação, mas em mais associação.
Porque, no fim, o problema não é que somos poucos. É que, mesmo sendo muitos, ainda trabalhamos como se estivéssemos sozinhos.

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